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China flexibilizou a política do filho único, ofereceu bônus por bebês e até taxou preservativos — mas a crise de natalidade do país continua piorando

Durante décadas, o governo chinês acreditou que bastaria permitir mais filhos para que milhões de famílias voltassem a ter crianças. Mas a realidade foi muito diferente. Agora, o país enfrenta uma combinação explosiva de envelhecimento acelerado, crise de solteiros, pressão econômica e mudanças culturais profundas que podem transformar a economia global nas próximas décadas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante anos, a China acreditou que controlava seu futuro demográfico com precisão quase matemática.

Primeiro, limitou nascimentos com a política do filho único. Depois, quando percebeu que a população estava envelhecendo rápido demais, tentou incentivar famílias a terem mais filhos novamente.

Mas o plano falhou.

Hoje, o país enfrenta uma das quedas de natalidade mais rápidas da história moderna — e os efeitos começam a preocupar economistas, sociólogos e o próprio governo chinês.

O número de nascimentos entrou em colapso

Bebes
© Javier de la Maza- Unsplash

Os dados divulgados pela Agência Nacional de Estatísticas da China mostram que o país registrou apenas 7,92 milhões de nascimentos em 2025, o menor índice desde a fundação da República Popular, em 1949.

A taxa de natalidade caiu para 5,63 nascimentos por mil habitantes — um recorde negativo.

Ao mesmo tempo, o número de mortes continua superando o de nascimentos pelo quarto ano consecutivo. A população total chinesa diminuiu em cerca de 3,4 milhões de pessoas apenas no último ano.

Especialistas da ONU acreditam que a população chinesa pode perder mais da metade do tamanho atual até o fim do século.

O mais impressionante é que isso aconteceu muito antes do previsto.

A política do filho único mudou a China profundamente

No fim dos anos 1970, quando a população chinesa se aproximava de 1 bilhão de habitantes, o governo liderado por Deng Xiaoping lançou a famosa política do filho único.

O objetivo era conter o crescimento populacional para acelerar o desenvolvimento econômico.

Famílias que obedeciam recebiam incentivos financeiros e benefícios trabalhistas. Quem descumpria as regras podia enfrentar multas pesadas e, em alguns casos, medidas extremamente coercitivas, incluindo esterilizações e abortos forçados.

Segundo estimativas oficiais, a política evitou cerca de 400 milhões de nascimentos — embora esse número seja debatido por pesquisadores.

O problema é que o governo acreditava que a baixa fertilidade era temporária.

Pequim apostou em um “boom de bebês” que nunca aconteceu

Natalidad En China
© dx_www -Unsplash

Durante décadas, autoridades chinesas imaginaram que, assim que as restrições fossem relaxadas, as famílias voltariam naturalmente a ter mais filhos.

Mas isso não aconteceu.

A política de dois filhos, lançada em 2016, fracassou em gerar um aumento sustentado da natalidade. O mesmo ocorreu com a política de três filhos anunciada em 2021.

Segundo o professor Kerry Brown, o governo subestimou o impacto das mudanças econômicas e sociais no comportamento das famílias.

À medida que a China ficou mais urbana, competitiva e cara, criar filhos passou a ser visto como um enorme peso financeiro e emocional.

A “crise dos solteiros” virou um problema nacional

A política do filho único também gerou um desequilíbrio demográfico profundo entre homens e mulheres.

Em muitos casos, famílias preferiram ter meninos, considerados tradicionalmente responsáveis por sustentar os pais na velhice. Isso levou a abortos seletivos de fetos femininos e distorceu drasticamente a proporção entre os sexos.

O resultado foi o surgimento de milhões de homens incapazes de encontrar parceiras.

Na China, eles ficaram conhecidos como “bare branches” — ou “galhos secos”, em tradução livre — uma metáfora para homens que não deixariam descendentes.

Ao mesmo tempo, mulheres mais escolarizadas passaram a adiar o casamento ou simplesmente optar por não casar.

O termo “mulheres sobrando” gerou revolta

Na tentativa de incentivar casamentos, parte da mídia estatal chinesa começou a usar a expressão “sheng nu”, que significa algo próximo de “mulheres sobrando”.

O termo era usado para descrever mulheres solteiras, altamente escolarizadas e focadas na carreira após certa idade.

A expressão gerou enorme reação negativa e passou a simbolizar o conflito entre expectativas tradicionais e a nova realidade feminina chinesa.

Em 2023, cerca de 43% das mulheres chinesas entre 25 e 29 anos estavam solteiras.

Nem bônus financeiros convenceram os jovens

O governo tentou reagir oferecendo incentivos econômicos.

Entre eles, pagamentos de cerca de US$ 500 por criança pequena, campanhas patrióticas incentivando maternidade e até medidas controversas, como o aumento de impostos sobre anticoncepcionais e preservativos.

Mas o efeito foi quase nulo.

Muitos jovens chineses afirmam simplesmente não conseguir sustentar filhos diante do custo crescente de moradia, educação e trabalho extremamente competitivo.

Além disso, mulheres relatam dificuldade para equilibrar maternidade e carreira em uma cultura profissional que ainda valoriza jornadas intensas e disponibilidade total.

O medo de envelhecer antes de enriquecer

China Ia
© Dongsh – Unsplash

A queda populacional ameaça diretamente a economia chinesa.

Com menos jovens entrando no mercado de trabalho e mais idosos dependendo de aposentadorias e assistência social, cresce a pressão sobre o sistema econômico.

Países como Japão também enfrentam envelhecimento populacional, mas possuem renda per capita muito mais alta.

A preocupação na China é diferente: envelhecer antes de atingir o nível de riqueza necessário para sustentar essa transição demográfica.

Mesmo assim, alguns especialistas acreditam que Pequim ainda tentará usar tecnologia, automação e políticas públicas agressivas para reduzir os impactos da crise.

Mas uma coisa já ficou clara: depois de décadas controlando quantos filhos as famílias poderiam ter, o governo chinês descobriu que convencer as pessoas a ter filhos pode ser muito mais difícil.

[ Fonte: BBC ]

 

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