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Ciência

O que a ciência descobriu dentro dos dentes de leite pode abrir um novo caminho contra doenças raras

Algo que normalmente acaba guardado em uma caixa ou debaixo do travesseiro está ganhando uma função inesperada nos laboratórios e pode ajudar a investigar doenças neurológicas difíceis de estudar.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Para muitas famílias, a queda de um dente de leite é apenas um pequeno ritual da infância. Para um grupo de pesquisadores, porém, esse material descartado pode funcionar como uma espécie de janela para o sistema nervoso de crianças com doenças raras. Uma iniciativa científica espanhola pretende aproveitar células escondidas dentro desses dentes para criar modelos de laboratório e procurar pistas que seriam extremamente difíceis de obter diretamente do cérebro.

Um dente que pode virar neurônio no laboratório

A ideia está sendo desenvolvida pelo Projeto Sagutxoa, iniciativa impulsionada pela fundação The Walk On Project (WOP), com participação do Instituto de Neurociências, centro conjunto da Universidade Miguel Hernández e do Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha (CSIC). O objetivo é estudar doenças neurodegenerativas raras usando células extraídas da polpa dos dentes de leite.

O ponto central está justamente nessa polpa. Ela contém células-tronco que podem ser cultivadas e diferenciadas em células com características neuronais. Isso permite que os cientistas criem no laboratório modelos celulares derivados do próprio paciente e observem alterações associadas à doença sem precisar obter tecido do cérebro.

A técnica não surgiu do zero. Pesquisadores já demonstraram que células-tronco da polpa dental de dentes decíduos podem originar culturas contendo neurônios e células gliais, tornando-se uma ferramenta interessante para investigar síndromes neurogenéticas raras. Um protocolo desse tipo já foi descrito na literatura científica e está disponível na base de dados PubMed.

A vantagem é particularmente importante quando se trata de crianças. O material aparece naturalmente quando o dente cai, evitando procedimentos invasivos apenas para obter uma amostra destinada à pesquisa.

O laboratório quer descobrir o que diferencia células doentes das saudáveis

O que a ciência descobriu dentro dos dentes de leite pode abrir um novo caminho contra doenças raras
© Pexels

O Projeto Sagutxoa pretende ir além da simples criação de neurônios. Os pesquisadores querem produzir diferentes culturas celulares, realizar experimentos e gerar grandes quantidades de dados sobre o funcionamento dessas células.

Depois, entra em cena uma combinação muito mais tecnológica: inteligência artificial e computação quântica. A proposta é utilizar essas ferramentas para procurar padrões nos dados produzidos pelos experimentos e identificar diferenças que possam indicar mecanismos envolvidos nas doenças.

A expectativa é que esses modelos também possam ser usados para testar compostos em laboratório. Em vez de administrar experimentalmente uma substância a uma criança, pesquisadores poderiam inicialmente observar como células derivadas daquele paciente respondem ao tratamento.

Isso não significa que um dente de leite já permita descobrir qual medicamento funcionará para determinada pessoa. O projeto ainda está em uma etapa preliminar e sua primeira missão é avaliar a viabilidade da metodologia. A fase inicial tem orçamento previsto de 120 mil euros.

Esse cuidado é importante porque existe uma distância considerável entre encontrar um efeito interessante em células cultivadas e desenvolver uma terapia segura e eficaz para seres humanos.

Por que doenças raras tornam essa estratégia especialmente interessante

Um dos grandes obstáculos na pesquisa de doenças neurogenéticas raras é justamente conseguir amostras suficientes. Os pacientes podem estar espalhados por diferentes cidades ou países, e algumas condições atingem um número extremamente pequeno de pessoas.

Os dentes oferecem uma alternativa peculiarmente acessível. Há grupos científicos que já desenvolveram métodos para receber dentes decíduos enviados pelas próprias famílias e estabelecer linhagens de células da polpa dental para investigar síndromes raras.

Há também evidências de que essas células podem reproduzir características mensuráveis de determinadas doenças. Um estudo publicado em 2024, por exemplo, estabeleceu linhagens derivadas de dentes de leite de pacientes com mucopolissacaridose tipo II e apontou seu potencial como modelo para estudar a doença e realizar testes in vitro.

No Sagutxoa, a coleta deverá seguir um protocolo padronizado, com consentimento informado. As amostras serão destinadas a um biobanco público integrado à rede nacional do Instituto de Saúde Carlos III, segundo informações divulgadas sobre o projeto.

Uma pequena peça da infância com uma função inesperada

O que a ciência descobriu dentro dos dentes de leite pode abrir um novo caminho contra doenças raras
© cottonbro studio – pexels

Ainda é cedo para saber se essa estratégia resultará em novos medicamentos. O valor imediato do projeto está em criar modelos melhores para compreender doenças que, justamente por sua raridade, costumam enfrentar limitações de financiamento, disponibilidade de pacientes e material biológico.

Revisões científicas também destacam o potencial das células-tronco provenientes da polpa dental para pesquisas relacionadas ao sistema nervoso, embora grande parte das possíveis aplicações terapêuticas continue em estágio pré-clínico.

Para as famílias, a mudança de perspectiva é curiosa. O dente que normalmente marca uma lembrança da infância pode carregar células capazes de fornecer aos pesquisadores informações sobre uma doença genética.

E talvez seja justamente essa a parte mais promissora do Projeto Sagutxoa: transformar um material obtido naturalmente, que normalmente seria descartado, em uma plataforma para estudar doenças nas quais cada nova amostra pode fazer diferença.

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