Inteligência artificial e computação quântica estão transformando capacidade de processamento em uma questão estratégica. Hoje, grande parte dessa infraestrutura permanece concentrada nos Estados Unidos, Europa, China e outras regiões com enormes investimentos tecnológicos. A América Latina ainda ocupa uma posição secundária nesse mapa. Uma nova iniciativa pretende começar a mudar esse cenário com oito centros conectados, milhões de dólares em investimentos e uma discussão que vai muito além de computadores mais rápidos.
Existe uma lacuna enorme no mapa mundial da computação avançada

Atualmente, mais de 40 centros de computação avançada com capacidade quântica operam ao redor do mundo, concentrados principalmente na América do Norte, Europa e região do Golfo Pérsico. Nenhum deles está localizado na América Latina.
Essa diferença ganhou ainda mais importância com a explosão da inteligência artificial.
Treinar e executar modelos sofisticados exige enormes quantidades de capacidade computacional. Como consequência, controlar essa infraestrutura começa a determinar quais empresas e países conseguem acessar determinadas tecnologias, quanto precisam pagar por elas e sob quais condições seus dados são processados.
É nesse cenário que aparece a The Quantum Alliance (TQA), empresa fundada e presidida pelo argentino Facundo Díaz.
O projeto pretende criar oito centros de computação avançada distribuídos por seis países da região. Buenos Aires, Patagônia, Bogotá, São Paulo, Rio de Janeiro, Lima, Santiago e Cidade do México aparecem no plano inicial.
Cada unidade combinaria servidores convencionais, infraestrutura para inteligência artificial e acesso a sistemas de computação quântica, todos coordenados por uma plataforma de software.
A proposta ainda está em uma fase inicial. Existem laboratórios funcionando e negociações com diferentes governos, mas grande parte da infraestrutura planejada ainda precisa sair do papel.
O primeiro passo pode movimentar até US$ 60 milhões
A escala pretendida é significativa. Segundo Díaz, a primeira etapa prevê investimentos entre US$ 50 milhões e US$ 60 milhões até 2028. O próprio empresário ressalta, porém, que se trata de uma projeção, e não de dinheiro já desembolsado ou de compromissos financeiros assumidos pelas cidades envolvidas.
O objetivo é permitir que empresas e governos latino-americanos utilizem inteligência artificial e tecnologias quânticas mantendo uma parcela maior da infraestrutura e dos dados dentro da própria região.
Os laboratórios são uma peça importante dessa estratégia.
A ideia é permitir que uma organização chegue com um problema concreto, trabalhe ao lado de especialistas, experimente diferentes soluções utilizando seus próprios dados e só então decida se existe benefício suficiente para transformar o teste em uma aplicação real.
Um banco, por exemplo, poderia executar modelos especializados utilizando documentos internos dentro de um ambiente privado. Empresas de energia poderiam testar tecnologias para otimizar operações.
Mais do que vender capacidade computacional, portanto, o projeto tenta criar conhecimento local.
A preocupação é que, se a região esperar até que inteligência artificial e computação quântica estejam completamente maduras, poderá acabar dependendo ainda mais de países e empresas que construíram experiência e infraestrutura anos antes.
Existe outro relógio correndo e ele envolve segurança

A computação quântica não interessa apenas pela possibilidade de realizar determinados cálculos de maneira radicalmente diferente dos computadores atuais.
Existe também uma preocupação crescente com criptografia.
Em 2024, o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST) publicou seus primeiros padrões de criptografia pós-quântica e recomendou que organizações começassem a preparar a transição. O Google estabeleceu 2029 como um de seus horizontes para migração.
O motivo envolve uma ameaça conhecida como Harvest Now, Decrypt Later.
A lógica é inquietante: informações criptografadas podem ser capturadas hoje e armazenadas durante anos. Se computadores quânticos suficientemente poderosos forem desenvolvidos futuramente, determinados métodos criptográficos atuais poderiam se tornar vulneráveis.
Ainda não existe evidência pública de uma máquina capaz de realizar esse ataque contra os principais sistemas modernos de chave pública. Mesmo assim, organizações já se preparam porque algumas informações precisam permanecer confidenciais durante décadas.
Prontuários médicos, segredos industriais e documentos estratégicos são exemplos.
E existe um detalhe importante: começar a adotar criptografia pós-quântica não exige possuir um computador quântico. A preparação pode ser feita com tecnologias convencionais, identificando informações sensíveis e substituindo gradualmente sistemas vulneráveis.
Buenos Aires, Bogotá e outras cidades já aparecem nas conversas
A TQA afirma manter negociações com diferentes governos latino-americanos, embora ainda não existam definições fechadas para todos os projetos.
Em Buenos Aires, as conversas incluem possíveis aplicações em mobilidade, serviços públicos e proteção de informações. Representantes da IonQ, empresa especializada em computação quântica, também participaram de reuniões com autoridades locais.
Díaz mencionou ainda conversas relacionadas a infraestrutura e inovação em Bogotá, além de possibilidades ligadas ao setor energético de Neuquén dentro do chamado Quantum Patagonia.
Brasil, Chile, Peru e México completam o mapa previsto.
A velocidade de implantação dependerá da demanda, dos acordos alcançados e das oportunidades encontradas em cada mercado. Isso significa que o projeto ainda está distante de garantir que todos os oito centros previstos serão efetivamente construídos nas condições atualmente imaginadas.
Mesmo assim, a iniciativa coloca uma questão importante sobre a mesa.
Durante anos, a discussão tecnológica esteve concentrada em quem desenvolveria o melhor software, algoritmo ou modelo de inteligência artificial. A nova corrida mostra que existe outra camada igualmente decisiva: quem possui as máquinas capazes de executar tudo isso.
Para a América Latina, entrar nessa disputa significa tentar deixar de ser apenas consumidora de capacidade computacional produzida no exterior.
O plano dos oito centros ainda precisa provar sua viabilidade. Mas a ambição por trás dele é clara: garantir que, quando a próxima etapa da computação chegar, a região não precise assistir novamente de fora.
[Fonte: LN]