Pular para o conteúdo
Ciência

Cientistas encontram um canal de comunicação entre o cérebro e o sistema imunológico escondido no crânio

Estruturas semelhantes a linfonodos foram encontradas na medula óssea do crânio e podem funcionar como uma primeira linha de defesa do cérebro. A descoberta abre novas possibilidades para estudar doenças neurológicas.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

O crânio pode desempenhar um papel muito mais importante na proteção do cérebro do que simplesmente funcionar como uma barreira física. Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis identificaram estruturas imunológicas até então desconhecidas na medula óssea craniana.

Em experimentos com camundongos, os cientistas descobriram estruturas semelhantes a linfonodos capazes de responder a alterações no cérebro antes que sinais cheguem a linfonodos mais distantes. A equipe também encontrou evidências de células imunológicas semelhantes na medula óssea do crânio humano.

Os resultados, publicados na revista Nature, revelam uma conexão entre cérebro, crânio e sistema imunológico que pode ajudar a explicar como o organismo monitora doenças neurológicas.

A medula óssea do crânio é mais importante do que parecia

Células-tronco conseguem reconstruir conexões cerebrais após um AVC
© Imagem gerada por inteligência artificial – Gizmodo BR

A equipe liderada por Jonathan Kipnis, professor de Patologia e Imunologia da Universidade de Washington, acompanhou o movimento de proteínas que saíam do cérebro.

Os pesquisadores observaram que essas moléculas percorriam pequenos canais até alcançar a medula óssea do crânio.

Foi ali que encontraram a surpresa.

Dentro dessa região existiam estruturas imunológicas com características normalmente associadas aos linfonodos. Esses órgãos funcionam como importantes centros de organização das respostas de defesa do organismo.

Segundo Kipnis, a descoberta mostra que a medula óssea craniana não deve ser vista apenas como uma estrutura localizada ao redor do cérebro. Ela também abriga centros especializados relacionados às respostas imunológicas desse órgão.

Uma espécie de centro de treinamento do sistema imunológico

As estruturas identificadas apresentam componentes necessários para organizar respostas imunológicas sofisticadas.

Entre eles estão células T foliculares auxiliares. Essas células ajudam os linfócitos B a amadurecer e produzir anticorpos capazes de reconhecer determinados alvos.

Esse processo normalmente acontece em estruturas especializadas dos linfonodos.

Encontrá-lo na medula óssea saudável do crânio foi algo inesperado.

“É a primeira vez que estruturas semelhantes são observadas na medula óssea saudável”, explicou Jang Hyun Park, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado no laboratório de Kipnis.

Para os pesquisadores, a existência desse sistema pode estar relacionada às necessidades particulares do cérebro, um órgão que exige mecanismos de proteção altamente especializados.

O sistema reagiu ao câncer cerebral antes de outros linfonodos

Os experimentos também revelaram uma possível função dessas estruturas.

Em camundongos com câncer cerebral, os centros imunológicos localizados no crânio reagiram à presença de células anormais antes que linfonodos mais distantes recebessem sinais da doença.

Isso sugere que a medula óssea craniana pode atuar como uma espécie de posto avançado de vigilância.

Em vez de depender exclusivamente do sistema imunológico distribuído pelo restante do organismo, o cérebro poderia contar com uma defesa localizada muito mais próxima.

A descoberta ajuda a mudar uma visão histórica do cérebro como um órgão relativamente isolado do sistema imunológico.

Descoberta pode ajudar no estudo de Alzheimer e Parkinson

Cancer Alzheirmer Cerebro
© sfam_photo via Shutterstock

As implicações podem ir além do câncer cerebral.

Diversas doenças neurológicas possuem componentes inflamatórios ou imunológicos. Entre elas estão Alzheimer e Parkinson, além de outras condições que envolvem alterações na interação entre cérebro e sistema imunológico.

Os pesquisadores também mencionam esquizofrenia e Covid longa como áreas que poderiam ser investigadas a partir desse novo mecanismo.

Uma possibilidade futura seria desenvolver tratamentos capazes de atuar diretamente sobre os centros imunológicos localizados na medula óssea do crânio.

Em teoria, essa abordagem poderia permitir intervenções mais direcionadas ao sistema nervoso e reduzir efeitos sobre outras partes do organismo. Mas essa possibilidade ainda é experimental e exigirá muitos estudos antes de qualquer aplicação clínica.

Outro ponto importante é que grande parte dos experimentos foi realizada em camundongos. Embora os pesquisadores tenham identificado células semelhantes em amostras humanas, ainda será necessário determinar exatamente como essas estruturas funcionam nas pessoas.

Mesmo assim, a descoberta acrescenta uma peça importante a um quebra-cabeça que mudou bastante nos últimos anos.

O cérebro não está tão separado das defesas do organismo quanto se acreditava. E parte de seu sistema de vigilância imunológica pode estar escondida justamente no osso que o envolve.

 

[ Fonte: ImMedico ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados