Durante muito tempo, o que acontece nos momentos finais da vida foi tratado como um mistério difícil de acessar. Mas, nos bastidores dos cuidados paliativos, profissionais vêm observando algo que se repete com mais frequência do que se imaginava. Não são apenas sintomas físicos — há também experiências subjetivas que parecem seguir certos padrões. E agora, um estudo tenta organizar essas percepções para entender melhor o que pode estar acontecendo.
Um fenômeno mais comum do que parece
Uma pesquisa conduzida na Itália trouxe à tona um aspecto pouco discutido sobre o fim da vida: sonhos e visões intensas relatados por pacientes em fase terminal. Publicado na revista Death Studies, o estudo indica que essas experiências não são casos isolados, mas sim ocorrências frequentes nos últimos dias.
Segundo profissionais envolvidos no acompanhamento desses pacientes, essas percepções podem surgir tanto durante o sono quanto em momentos de vigília. Ou seja, não se tratam apenas de sonhos convencionais, mas de vivências que atravessam diferentes estados de consciência.
Essa constatação chamou atenção justamente por sua recorrência — algo que, até então, era observado de forma mais fragmentada no cotidiano clínico.
Imagens que se repetem e ganham significado

Ao reunir relatos de especialistas da área, os pesquisadores conseguiram identificar padrões claros no conteúdo dessas experiências. Entre os elementos mais recorrentes, destacam-se encontros com pessoas já falecidas, como familiares próximos, parceiros ou até animais de estimação.
Em muitos casos, essas figuras aparecem de forma tranquila, transmitindo mensagens de despedida ou sugerindo uma espécie de reencontro. Além disso, surgem imagens simbólicas que se repetem com frequência: portas abertas, escadas e ambientes iluminados.
Esses elementos são frequentemente interpretados como representações de transição — uma forma simbólica de lidar com a ideia de passagem para outro estado. Mais do que simples imagens, eles parecem carregar um significado emocional profundo.
O papel emocional dessas experiências
Para os pesquisadores, esses sonhos e visões podem funcionar como uma ferramenta psicológica importante. Em um momento em que a comunicação direta se torna mais difícil, essas experiências oferecem uma forma alternativa de expressão.
Por meio desse “linguagem simbólica”, os pacientes parecem elaborar sentimentos complexos, como medo, saudade ou questões não resolvidas. Isso ajuda a dar sentido ao momento vivido, mesmo que de forma indireta.
Na maioria dos relatos, essas vivências são descritas como tranquilizadoras. Muitos pacientes demonstram menos ansiedade após essas experiências, o que sugere um possível efeito reconfortante.
Nem sempre são experiências positivas
Apesar do predomínio de relatos positivos, nem todas as experiências seguem esse padrão. Uma parcela menor dos casos apresenta conteúdos mais perturbadores, com imagens que causam desconforto ou medo.
Segundo os especialistas, esses episódios podem estar relacionados a dores físicas intensas ou conflitos emocionais não resolvidos. Nesses casos, os sonhos e visões refletem tensões internas que ainda não foram processadas.
Mesmo assim, esses relatos também são considerados importantes, pois oferecem pistas sobre o estado emocional do paciente e podem ajudar a orientar o cuidado.
O que a ciência realmente pode afirmar
Os autores do estudo fazem questão de destacar um ponto essencial: essas experiências não devem ser interpretadas como evidência do que acontece após a morte. O foco da pesquisa está na observação clínica, não em explicações metafísicas.
Ainda assim, compreender melhor esses padrões pode ter um impacto significativo na forma como pacientes são acompanhados em seus últimos dias. Ao reconhecer essas vivências como parte do processo, profissionais de saúde podem oferecer um suporte mais sensível e adequado.
No fim, o estudo não responde a todas as perguntas — mas abre uma janela para um aspecto pouco explorado da experiência humana. E talvez, mais do que explicar, ele ajude a compreender com mais empatia um dos momentos mais delicados da vida.
[Fonte: La Razón]