No Brasil, onde o acesso à saúde pública é muitas vezes desigual, um hospital na Bahia se destaca por sua missão: oferecer cuidados paliativos a quem enfrenta doenças incuráveis ou em estágio terminal. Instalado em um antigo casarão com vista para o mar, o Mont Serrat não promete curas, mas entrega acolhimento, escuta e serenidade. É ali que muitos pacientes vivem seus últimos dias em paz — e onde outros descobrem que ainda há muito para viver.
Um refúgio à beira-mar
Ayrton dos Santos Pinheiro, de 90 anos, reviveu lembranças ao descobrir que estava internado em um dos cenários mais marcantes de sua vida: a Ponta de Humaitá. Ex-maratonista e apaixonado por Salvador, ele se surpreendeu ao perceber que passaria seus dias finais num lugar repleto de memórias.
A acolhida no Mont Serrat fez com que Ayrton se sentisse mais forte. Ele é um dos pacientes do primeiro hospital público brasileiro 100% dedicado a cuidados paliativos, instalado em um antigo hospital de infectologia. Com 64 leitos, o espaço é voltado a quem tem doenças graves e tempo de vida estimado em até seis meses.
Cuidados que vão além da medicina
Mais uma vez, nossos equipamentos de saúde são destaque nacional. Agora, o Hospital Estadual Mont Serrat, em Salvador, ganhou a atenção da BBC como o primeiro hospital público do Brasil dedicado exclusivamente aos cuidados paliativos. ❤️🩹 pic.twitter.com/VBbqZ2nSQ0
— Jerônimo Rodrigues (@Jeronimoba13) June 28, 2025
No Mont Serrat, não há UTI nem sala de reanimação. O foco não está em prolongar a vida a qualquer custo, mas em oferecer conforto físico, emocional e espiritual. Os pacientes são indicados por outras unidades de saúde e, antes de chegar ali, já enfrentaram o que os profissionais chamam de “conversas difíceis” — a aceitação de que o foco agora é o bem-estar, e não mais a cura.
Frases como “Você quer fazer a barba?”, “Qual música você gosta?” e “O que te dá prazer?” fazem parte do cotidiano dos pacientes. “Aqui, o foco é cuidar enquanto há vida”, resume a médica Karoline Apolônia, coordenadora do núcleo estadual de cuidados paliativos.
Espaços para o adeus
O hospital tem estrutura pensada para o acolhimento de pacientes e familiares. O necrotério fica no centro do terreno, ao lado da chamada Sala da Saudade, onde as famílias se despedem. Um ambiente acolhedor, com sofá, café, luz suave e silêncio respeitoso.
A ideia de acolher também os familiares norteia o trabalho da equipe. Uma paciente em fim de vida, por exemplo, celebrou seu aniversário tomando goles de água, cercada por carinho. Para muitos acompanhantes, como Bárbara dos Santos, filha da dona Maria, esse cuidado “sem dor e sem grito” é um bálsamo diante da perda iminente.
Um SUS possível
Com 430 profissionais treinados em empatia e escuta, o hospital surpreende pela humanização. Todos — da faxina à equipe médica — passam por dinâmicas sobre como gostariam de ser tratados se estivessem ali como pacientes.
A história de Donizete, vítima de um câncer descoberto após um assalto, é emblemática. Segundo sua companheira, Ângela, ele chegou “morto” ao hospital, mas viveu mais dois meses com dignidade, cercado de cuidados. “Aqui é um pedacinho do céu”, afirmou emocionada.
Modelo para um país que envelhece
A experiência do Mont Serrat mostra que a demanda por cuidados paliativos tende a crescer. Entre 2000 e 2023, a população idosa no Brasil quase dobrou. Em 2070, quatro em cada dez brasileiros terão mais de 60 anos, segundo o IBGE.
A política nacional de cuidados paliativos foi lançada apenas em 2024, mas o núcleo da Bahia já formava especialistas desde 2019. A proposta é simples e urgente: se o sistema não se adaptar, não conseguirá dar suporte à população que envelhece.
O pôr do sol como despedida
O hospital foi construído num terreno com declive até um píer à beira-mar. Lá, pacientes contemplam o pôr do sol em suas cadeiras de rodas ou macas, muitas vezes ao lado da família. Para a equipe, “o mar é o maior altar”.
Ayrton, que sonhava ver o sol se pondo mais uma vez, conseguiu. Dias depois, teve alta e voltou para casa. Outros, como Everaldo e Marina, partiram pouco tempo após serem acompanhados por seus entes queridos, mas sem dor, sem pressa e com cuidado.
Mont Serrat não é um lugar onde as pessoas apenas morrem. É onde elas são lembradas, ouvidas e cuidadas até o fim — com amor.
[ Fonte: G1.Globo ]