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Ciência

O que está fazendo a “geleira do Apocalipse” tremer centenas de vezes na Antártida

Cientistas detectaram centenas de terremotos incomuns sob o gelo antártico. O fenômeno revela sinais sutis — e preocupantes — sobre a dinâmica de uma das geleiras mais instáveis do planeta.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Algo estranho vem acontecendo sob o gelo da Antártida. Longe de vulcões ou falhas tectônicas clássicas, sensores sísmicos começaram a registrar centenas de tremores silenciosos em uma região crítica do continente. Eles não vêm da crosta terrestre, mas do próprio gelo em movimento. O fenômeno, pouco conhecido até recentemente, pode oferecer pistas importantes sobre o futuro de uma das geleiras mais temidas pelos cientistas — e sobre o nível dos oceanos nas próximas décadas.

O que são terremotos glaciais e por que eles quase não aparecem nos mapas

O que está fazendo a “geleira do Apocalipse” tremer centenas de vezes na Antártida
© Pexels

Terremotos glaciais são diferentes dos sismos que costumam ocupar as manchetes. Eles não são causados por placas tectônicas, mas pelo comportamento físico do gelo. Esses eventos acontecem quando enormes blocos se desprendem da frente de uma geleira, tombam no oceano ou colidem com a própria massa de gelo, gerando vibrações que se propagam pelo solo.

O grande desafio é que esses tremores produzem ondas sísmicas de baixa frequência. Isso significa que passam despercebidos por muitos sistemas tradicionais de monitoramento, projetados para detectar sinais mais “agudos”, típicos de terremotos convencionais.

Foi apenas no início dos anos 2000 que cientistas começaram a identificar terremotos glaciais com mais clareza, principalmente na Groenlândia. Lá, eles costumam ser mais intensos, seguem um padrão sazonal bem definido e se tornaram mais frequentes com o aquecimento acelerado do Ártico — fatores que facilitam sua detecção.

Na Antártida, porém, o cenário é outro. O continente é mais frio, mais isolado e menos monitorado, o que faz com que esses eventos passem despercebidos por longos períodos.

O que os cientistas encontraram sob o gelo antártico

Ao analisar dados sísmicos coletados entre 2010 e 2023, pesquisadores identificaram 362 terremotos glaciais que ainda não haviam sido catalogados. A maioria deles se concentrou em duas regiões-chave: as geleiras Thwaites e Pine Island, ambas localizadas na Antártida Ocidental.

O dado mais alarmante veio da Thwaites, conhecida popularmente como “geleira do Apocalipse”. Sozinha, ela respondeu por 245 dos eventos detectados. O apelido não é exagero: caso essa geleira colapse completamente, o nível global do mar pode subir cerca de três metros.

O período de maior atividade sísmica ocorreu entre 2018 e 2020. Curiosamente, esses tremores não acompanharam variações sazonais da temperatura do ar, como acontece na Groenlândia. Em vez disso, coincidiram com algo mais profundo: uma aceleração do fluxo da língua de gelo da geleira em direção ao oceano, confirmada por observações de satélite.

Isso indica que os terremotos glaciais podem ser um reflexo direto de mudanças estruturais no comportamento da geleira — e não apenas de oscilações climáticas superficiais.

O papel invisível do oceano na instabilidade do gelo

Um dos pontos mais importantes do estudo é o papel do oceano. A pesquisa sugere que alterações nas condições oceânicas, ainda pouco compreendidas, podem estar enfraquecendo a base da geleira por baixo.

Águas mais quentes conseguem penetrar sob o gelo flutuante, derretendo-o por baixo e reduzindo o atrito que mantém a geleira “ancorada” ao continente. Quando esse equilíbrio se perde, o gelo acelera em direção ao mar — e os terremotos glaciais se tornam mais frequentes.

No caso da Pine Island, os pesquisadores detectaram terremotos a dezenas de quilômetros da costa, o que torna improvável que eles tenham sido causados apenas pelo desprendimento de icebergs. A origem desses sinais ainda é um mistério e representa um novo desafio científico.

Esses dados reforçam uma ideia que vem ganhando força nos últimos anos: o futuro das grandes geleiras não depende apenas da temperatura do ar, mas da interação complexa entre gelo, oceano e rocha.

Por que esses tremores importam para o futuro do planeta

Os terremotos glaciais funcionam como uma espécie de “estetoscópio” natural das geleiras. Eles permitem que cientistas acompanhem, quase em tempo real, mudanças internas que seriam invisíveis de outra forma.

Compreender esses sinais é essencial para reduzir as incertezas nas projeções de elevação do nível do mar. As geleiras da Antártida Ocidental desempenham um papel central na estabilidade do sistema climático global, e pequenos desequilíbrios podem desencadear efeitos em cascata.

Mais do que um fenômeno curioso, os terremotos glaciais são um alerta silencioso. Eles mostram que algo está se reorganizando sob o gelo — lentamente, mas de forma persistente. Decifrar esses sinais pode ser decisivo para entender se estamos diante de um processo reversível ou de um caminho sem volta.

[Fonte: Olhar digital]

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