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Ciência

A busca por um navio perdido na Antártida levou a uma descoberta científica surpreendente sob o gelo Larsen C

O que começou como uma expedição para encontrar um navio histórico acabou revelando um dos ecossistemas mais impressionantes já observados sob o gelo antártico. Cientistas descobriram centenas de ninhos de peixes organizados como uma verdadeira “cidade submarina”, escondida por milênios sob a plataforma de gelo Larsen C.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Expedições científicas costumam ser planejadas com objetivos bem definidos, mas nem sempre a ciência segue o roteiro esperado. Durante uma missão no mar de Weddell, na Antártida, pesquisadores que buscavam o lendário HMS Endurance, navio naufragado em 1915, acabaram fazendo um achado ainda mais inesperado: uma enorme colônia de ninhos de peixes, preservada sob uma espessa camada de gelo por milhares de anos. A descoberta abriu uma nova janela para entender a biodiversidade em ambientes extremos.

Uma área recém-exposta após o colapso do gelo

A região onde o achado ocorreu só se tornou acessível após o desprendimento do iceberg A68, em 2017, um dos maiores já registrados. Com a separação do iceberg da plataforma de gelo Larsen C, uma vasta área do fundo do oceano ficou exposta pela primeira vez em tempos históricos.

Em janeiro de 2019, cientistas embarcaram no navio de pesquisa sul-africano SA Agulhas II para uma missão de 49 dias no mar de Weddell. O objetivo principal era localizar o HMS Endurance, famoso por ter sido o navio da expedição de Ernest Shackleton. Embora o gelo marinho tenha impedido uma busca completa pelo navio, a equipe conseguiu registrar imagens inéditas do leito oceânico.

Um robô revela uma paisagem inesperada

O ponto de virada da expedição veio com o uso do veículo operado remotamente Lassie, um robô submarino equipado com câmeras de alta definição. Ao explorar o fundo do mar, os pesquisadores identificaram mais de mil cavidades circulares no sedimento, organizadas de forma surpreendentemente regular.

Essas estruturas eram ninhos da espécie Lindbergichthys nudifrons, um peixe antártico conhecido popularmente como albacora ou cação-de-rocha. Os ninhos apareciam distribuídos em padrões geométricos complexos, incluindo formas de meia-lua, ovais, estruturas em “U” e também unidades isoladas, criando um cenário que os cientistas compararam a uma cidade submarina.

Estratégias coletivas para proteger os ovos

A análise das imagens revelou que cerca de 42% dos ninhos estavam organizados em grandes aglomerados. Segundo os pesquisadores, essa disposição não é aleatória. Ela pode funcionar como uma estratégia de defesa coletiva contra predadores comuns da região, como estrelas-do-mar quebradiças e vermes-cinta.

Esses predadores são capazes de localizar ovos de peixes por meio de sinais químicos liberados na água. Ao agrupar os ninhos, os peixes podem confundir esses rastros químicos, reduzindo a eficiência dos ataques. Já os ninhos isolados, em geral, pertencem a indivíduos maiores, que provavelmente conseguem defender seus ovos sem depender da proteção do grupo.

Pais atentos e cuidado prolongado

Outro detalhe que chamou a atenção dos cientistas foi o comportamento reprodutivo da espécie. Os machos de Lindbergichthys nudifrons permanecem protegendo os ninhos por cerca de quatro meses, um período longo em um ambiente tão hostil quanto o fundo do oceano antártico.

As imagens captadas pelo robô também mostraram larvas dentro de alguns ninhos, indicando sucesso reprodutivo. Esse padrão reforça a chamada “teoria do rebanho egoísta”, conceito da biologia evolutiva que sugere que indivíduos tendem a se posicionar próximos uns dos outros para reduzir o risco de serem alvo de predadores.

Um ecossistema mais complexo do que se imaginava

Achados anteriores na região já haviam apontado comportamentos semelhantes em outras espécies, como o peixe-do-gelo antártico, famoso por possuir sangue praticamente transparente. A repetição desses padrões sugere que o ecossistema sob a plataforma de gelo é muito mais diverso e estruturado do que se pensava até recentemente.

O fato de essa área ter permanecido selada sob cerca de 200 metros de gelo por milhares de anos torna a descoberta ainda mais relevante. Sua abertura recente permite observar como a vida marinha responde rapidamente a mudanças ambientais extremas.

Implicações para a conservação da Antártida

Os resultados da expedição reforçam a importância da proposta de criação de uma Área Marinha Protegida no mar de Weddell, atualmente em análise pela Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos da Antártida. Para os cientistas, proteger regiões como essa é essencial para preservar ecossistemas únicos, ainda pouco conhecidos.

Embora o HMS Endurance só tenha sido localizado anos depois, em 2022, a descoberta dos ninhos sob o gelo Larsen C acabou se tornando um dos achados mais valiosos da expedição. Um lembrete de que, na ciência, nem sempre encontrar o que se procura é o que gera as maiores descobertas.

 

[ Fonte: El Nuevo Día ]

 

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