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Ciência

O rastro das gigantes do petróleo que alimentaram ondas de calor letais

Um estudo publicado na revista Nature revelou que mais de 180 empresas de combustíveis fósseis e cimento agravaram diretamente centenas de ondas de calor desde o ano 2000, resultando em milhares de mortes. Pela primeira vez, a ciência identificou com precisão quais corporações, entre elas ExxonMobil, Shell e Saudi Aramco, deixaram uma “impressão digital de calor” com consequências fatais.
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Tempo de leitura: 2 minutos

A ciência que aponta culpados

Pesquisadores da ETH Zurich analisaram 213 ondas de calor entre 2000 e 2023 e encontraram um aumento alarmante na frequência desses eventos. O aquecimento global tornou-os de 20 vezes mais prováveis para 200 vezes mais prováveis em apenas duas décadas.

As 14 corporações mais poluentes, incluindo Saudi Aramco, ExxonMobil, Chevron, BP e Shell, emitiram juntas tanto quanto as outras 166 empresas analisadas. Cada uma foi responsável por intensificar mais de 50 ondas de calor que, sem suas emissões, dificilmente teriam ocorrido.

A “impressão digital” do calor corporativo

O estudo calculou quanto cada empresa contribuiu para o aumento da intensidade das temperaturas extremas. Entre 2010 e 2019, as ondas de calor ficaram em média 1,68 ºC mais fortes, sendo que 0,47 ºC desse valor vieram apenas das 14 maiores poluidoras.

Para chegar ao resultado, os cientistas retiraram as emissões atribuídas a cada companhia dos modelos climáticos. O exercício gerou um mapa inédito de responsabilidade climática, com implicações diretas em processos judiciais e políticas públicas.

Crescem as ações judiciais contra petrolíferas

A nova evidência fortalece o movimento global que busca responsabilizar legalmente as grandes poluidoras. Nos Estados Unidos, estados como Vermont e Nova York já aprovaram leis nesse sentido. No Oregon, o condado de Multnomah pede US$ 50 bilhões em indenização da ExxonMobil e de outras corporações. Em Washington, uma família entrou com a primeira ação de “morte por negligência” após uma onda de calor.

“Agora podemos apontar ondas de calor específicas e dizer: ExxonMobil fez isso. Shell fez isso”, declarou Cassidy DiPaola, porta-voz da campanha Make Polluters Pay.

Próximos passos: atribuir responsabilidade a outros desastres

O time da ETH Zurich já planeja aplicar essa metodologia a chuvas extremas, secas e incêndios florestais. A meta é criar uma base científica sólida que atribua responsabilidades a atores específicos, fornecendo ferramentas para juízes, legisladores e comunidades afetadas.

Segundo os pesquisadores, essa nova ciência de atribuição não mostra apenas o que acontece na atmosfera, mas expõe quem tomou decisões corporativas que resultaram em sofrimento humano e destruição ambiental.

A mensagem é clara: os desastres climáticos não são mais apenas fenômenos naturais — eles têm rostos, nomes e sedes corporativas.

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