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Ciência

O segredo dos morcegos contra o câncer pode transformar a medicina humana

Eles vivem o equivalente a 180 anos humanos sem desenvolver tumores. Agora, a ciência começa a entender o porquê — e o que isso pode significar para a luta contra o câncer.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Cientistas descobriram que algumas espécies de morcegos possuem defesas biológicas surpreendentes contra o câncer, vivendo por décadas sem apresentar tumores. O estudo recente não apenas desafia o que sabemos sobre envelhecimento, mas também aponta caminhos promissores para o desenvolvimento de tratamentos eficazes contra a doença em humanos.

 

Morcegos longevos e praticamente imunes ao câncer

Embora o tubarão-da-Groenlândia seja famoso por sua impressionante longevidade, chegando a viver mais de 250 anos, os morcegos também se destacam nesse quesito. Certas espécies, como o morcego-marrom-pequeno, podem viver até 25 anos — o que equivale a aproximadamente 180 anos humanos — e com um detalhe impressionante: sem desenvolver câncer, mesmo com o passar do tempo.

Pesquisadores da Universidade de Rochester (UR), nos Estados Unidos, estudaram quatro espécies de morcegos para entender essa resistência: o morcego-marrom-pequeno, o morcego-marrom-grande, o morcego-nectarívoro-de-caverna e o morcego-frugívoro-jamaicano. Os resultados podem abrir novas portas para terapias humanas contra o câncer.

 

Um gene poderoso e bem equilibrado

Um dos principais achados do estudo foi a atuação especial do gene supressor de tumores conhecido como p53. Esse gene existe também nos humanos, mas em cerca de 50% dos casos de câncer ele apresenta mutações que o tornam ineficaz.

Nos morcegos, porém, o p53 é uma verdadeira arma anticâncer. A espécie morcego-marrom-pequeno, por exemplo, possui duas cópias ativas desse gene, o que reforça sua capacidade de eliminar células defeituosas por meio da apoptose — o processo natural de “morte celular programada”.

Segundo os cientistas, esse mecanismo é parecido com o observado nos elefantes, que também possuem múltiplas cópias do p53. A chave, no entanto, está no equilíbrio: excesso de atividade desse gene pode eliminar células demais e causar danos colaterais. Os morcegos parecem ter evoluído para encontrar a medida certa.

 

Multiplicação celular sem envelhecimento

Outro fator crucial observado foi a atuação da enzima telomerase, que nos morcegos permite que suas células se multipliquem indefinidamente. Isso impede um fenômeno conhecido como senescência replicativa — um tipo de “aposentadoria celular” que ocorre após um número fixo de divisões e está associado ao envelhecimento e à inflamação.

Surpreendentemente, mesmo com essa multiplicação celular contínua, os morcegos não desenvolvem câncer. A explicação provável? A já mencionada ação eficiente do p53, que destrói células potencialmente perigosas antes que se tornem tumores.

 

Um sistema imunológico fora do comum

Além dessas adaptações genéticas, os morcegos também apresentam um sistema imunológico altamente diferenciado. É esse sistema que lhes permite sobreviver a vírus letais para humanos — como os causadores de SARS, MERS e possivelmente a covid-19.

Os pesquisadores sugerem que essas adaptações imunológicas únicas também podem ser eficazes para identificar e destruir células cancerígenas, ao mesmo tempo em que controlam a inflamação no organismo — um fator associado ao surgimento de tumores.

 

E se o segredo estivesse na natureza?

Embora os morcegos possam desenvolver câncer sob certas condições — seus pesquisadores notaram que bastam dois “golpes oncogênicos” para isso acontecer — a diferença está na robustez dos mecanismos de defesa natural dessas espécies.

Essas descobertas reforçam a ideia de que a natureza pode guardar respostas para desafios humanos complexos. O estudo confirma que o aumento da atividade do gene p53, já explorado por medicamentos experimentais, pode ser uma via promissora para inibir o crescimento de tumores.

Em última análise, entender como os morcegos lidam com o envelhecimento e o câncer pode oferecer pistas valiosas para prolongar a vida humana com mais saúde.

 

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