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Ciência

O telescópio Hubble pode “morrer” em apenas três anos — e o fim de um ícone da astronomia já tem data provável

Um novo estudo indica que o Hubble pode reentrar na atmosfera da Terra antes do esperado, encerrando uma das missões científicas mais importantes da história. A boa notícia é que um sucessor privado, financiado por um bilionário do Vale do Silício, já começa a ganhar forma.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Desde que foi lançado, em 1990, o telescópio espacial Hubble mudou para sempre a forma como a humanidade enxerga o Universo. Onde antes havia manchas escuras no céu, ele revelou galáxias, estrelas e estruturas cósmicas em escalas inimagináveis. Trinta e cinco anos depois, porém, o observatório que redefiniu a astronomia moderna pode estar se aproximando rapidamente do seu fim.

Segundo novas estimativas apresentadas esta semana durante a reunião da American Astronomical Society, nos Estados Unidos, o Hubble pode reentrar na atmosfera terrestre por volta de 2033. Mais preocupante ainda: existe uma probabilidade de 1 em 10 de que isso aconteça já em 2029, o que deixaria ao telescópio apenas cerca de três anos adicionais de operação.

Um relógio orbital que corre contra o tempo

O Hubble orbita a Terra em baixa órbita desde abril de 1990, quando foi lançado a bordo do ônibus espacial Discovery. Na época, ele operava a uma altitude de cerca de 579 quilômetros. Com o passar dos anos, no entanto, o atrito com as camadas superiores da atmosfera foi puxando lentamente o telescópio para baixo.

Hoje, o Hubble está a aproximadamente 525 quilômetros de altitude. Pode parecer alto, mas, em termos orbitais, isso significa que ele está cada vez mais exposto ao arrasto atmosférico — um processo que acelera sua queda de forma progressiva.

No passado, missões tripuladas da NASA elevaram a órbita do telescópio várias vezes para prolongar sua vida útil. Em 2022, a agência chegou a anunciar, junto com a SpaceX, um estudo de viabilidade para impulsionar novamente o Hubble até cerca de 600 quilômetros. Até agora, porém, nenhum plano concreto de reboost foi confirmado.

O papel inesperado do Sol

O novo estudo combina dados orbitais do Hubble com modelos de arrasto atmosférico que levam em conta a atividade solar. E é justamente o Sol o principal vilão dessa história.

Períodos de alta atividade solar aquecem e expandem a atmosfera superior da Terra, aumentando sua densidade em altitudes onde o Hubble ainda circula. Segundo os pesquisadores, os níveis de fluxo solar têm se mantido mais altos e por mais tempo do que o previsto, o que acelera a perda de altitude do telescópio.

Se nada for feito, as projeções indicam que o Hubble pode reentrar na atmosfera em cinco a seis anos. Em um cenário extremamente otimista, ele resistiria até 2040. No pior cenário, no entanto, a reentrada ocorreria já em 2029.

Quando o telescópio atingir cerca de 400 quilômetros de altitude, os cientistas estimam que restará menos de um ano antes de sua queda definitiva.

Um legado impossível de substituir

Antes do Hubble, astrônomos sequer sabiam com precisão a idade ou o tamanho do Universo. Com seu espelho de 2,5 metros, o telescópio permitiu medições exatas de distâncias cósmicas e ajudou a definir a taxa de expansão do Universo.

Em 1995, ele produziu uma das imagens mais icônicas da ciência: o Hubble Deep Field, revelando cerca de 3 mil galáxias em uma pequena região aparentemente vazia do céu. Desde então, acumulou 1,7 milhão de observações, contribuiu para a descoberta da energia escura, confirmou a existência de buracos negros supermassivos e entregou imagens históricas como os Pilares da Criação, na Nebulosa da Águia.

Um sucessor inesperado — e privado

Apesar do clima de despedida, há um possível alívio no horizonte. O ex-CEO do Google, Eric Schmidt, anunciou esta semana que está financiando um novo telescópio espacial chamado Lazuli, além de três observatórios terrestres.

O projeto, financiado pela fundação Schmidt Sciences, pode se tornar o primeiro telescópio espacial totalmente privado da história. O Lazuli teria um espelho de 2,4 metros — praticamente do tamanho do Hubble — e operaria em uma órbita elíptica muito mais alta, reduzindo drasticamente o arrasto atmosférico.

Segundo os responsáveis, o lançamento poderia ocorrer já no final de 2028, coincidindo perigosamente com o possível fim do Hubble.

“Temos décadas de avanços tecnológicos desde o Hubble”, afirmou Arpita Roy, líder do Instituto de Astrofísica e Espaço da Schmidt Sciences. “O Lazuli é uma versão moderna do Hubble, com instrumentos diferentes, resposta mais rápida e maior flexibilidade.”

O fim de uma era — e o começo de outra

Mesmo com o James Webb em operação, o Hubble continua sendo único por observar o Universo principalmente no espectro visível e ultravioleta. Sua possível perda deixaria uma lacuna científica real.

Seja em 2029 ou em 2033, o relógio do Hubble está correndo. E, enquanto ele se aproxima do fim, a astronomia entra em uma nova fase — uma em que telescópios espaciais podem deixar de ser exclusividade de governos e se tornar parte de uma nova corrida privada pelo cosmos.

 

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