Durante a cobertura da Jornada Mundial da Juventude de 2013, a jornalista Adriana Dias Lopes teve o privilégio de acompanhar o primeiro voo internacional do recém-eleito papa Francisco, de Roma ao Rio de Janeiro. À época, eram 68 jornalistas de diferentes nacionalidades embarcados no mesmo avião, atentos a cada movimento do novo pontífice. O que parecia ser apenas uma viagem institucional se revelou o prenúncio de um papado que mudaria os rumos da Igreja Católica.
Um papa fora do protocolo
Francisco foi o último a embarcar, carregando pessoalmente sua discreta bolsa de couro – um gesto simples, mas simbólico. Diferente de seus antecessores, que viajavam em espaços adaptados como suítes voadoras, ele ocupou um assento comum na primeira classe, sem privilégios visíveis. A cortina que o separava deles, jornalistas, abria-se vez ou outra, revelando um homem sorridente, leve, que trocava palavras com a comitiva de forma descontraída e afetuosa.
Duas horas após a decolagem, surgiu inesperadamente na área deles. Sem aviso, com humildade e curiosidade, quis lhes conhecer. Ele tinha seus sapatos gastos, os dentes amarelados, o anel de prata dourada e a cruz de ferro que pendia em seu peito – símbolos visuais do que viria a representar: um papa de escolhas simples, mas de impacto profundo.
Declarações que romperam o silêncio
O encontro a bordo se transformou em uma coletiva improvisada, onde, pela primeira vez, Francisco falou publicamente sobre seus pensamentos e intenções. Ele abordou temas espinhosos com naturalidade. Criticou o isolamento da juventude nas estruturas da Igreja. Reclamou do luxo clerical. E proferiu uma das frases mais marcantes de seu papado: “Se uma pessoa é gay, busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”
Ao final, chamou cada um dos jornalistas para receber uma bênção. Quando a Adriana tentou beijar sua mão, ele segurou a dela com firmeza e, olhos nos olhos, sussurrou: “Reze por mim.” Essa frase, repetida incansavelmente ao longo dos anos, tornou-se uma das marcas da espiritualidade de Francisco.
A simplicidade como revolução
Francisco logo mostrou que seus gestos não eram encenação. Foi o primeiro papa moderno a recusar viver no Palácio Apostólico, escolhendo como residência a Casa Santa Marta, onde dividia as refeições com outros residentes. Certa vez, ao verem que a água do cozimento da chicória seria descartada, ele alertou: “Eu bebo essa água com gosto. Ela faz bem.”
Essa ruptura com os hábitos luxuosos do alto clero não foi isolada. Ele adotou uma postura crítica diante da ostentação clerical e exigiu que padres e freiras se comprometessem com a pobreza como parte viva da fé. Suas atitudes inspiraram não apenas mudanças internas, mas também um novo olhar da sociedade sobre a figura do papa.
Um olhar compassivo sobre os fiéis
A segunda grande transformação iniciada naquele voo foi sua visão acolhedora sobre os desafios cotidianos dos fiéis. Francisco trouxe à tona discussões antes evitadas pela Igreja: defendeu que mães solteiras deveriam ter acesso aos sacramentos, reconheceu a legitimidade da separação em casos extremos e disse que o confessionário deveria ser “lugar da misericórdia, não de tortura”.
Também permitiu que mulheres ocupassem cargos de liderança nunca antes disponíveis para elas, como o caso de uma religiosa à frente de um importante dicastério do Vaticano. Aos poucos, mesmo sem alterar a doutrina, ele deu novos contornos à maneira como a Igreja se relaciona com seus seguidores.
Um voo, um sinal
Naquele dia, 12 mil metros acima da terra, ficou claro que Francisco não seria um papa comum. Ele não reescreveu dogmas, mas transformou a linguagem, os gestos e a forma como o Vaticano se apresentaria ao mundo.
Do aperto de mãos à escolha da residência, da frase sobre homossexuais ao cuidado com mães solo, tudo já estava ali, no voo que iniciou seu pontificado internacional. Uma viagem que, mais do que um deslocamento físico, foi o anúncio silencioso de uma revolução feita com compaixão.
[Fonte: O Globo]