O câncer continua sendo uma das principais causas de morte no mundo, mas uma parcela significativa dos casos poderia ser evitada. Um amplo estudo internacional coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e publicado na revista científica Nature Medicine aponta que quatro em cada dez diagnósticos estão associados a fatores de risco modificáveis. Entre eles, dois hábitos se destacam com clareza: fumar e consumir álcool.
Tabaco lidera os fatores de risco

De acordo com o levantamento, que analisou dados de 185 países, cerca de 20 milhões de novos casos de câncer foram registrados em 2022. Desses, 7,1 milhões estavam diretamente ligados a fatores preveníveis.
O tabagismo aparece como o principal responsável, associado a 15,1% de todos os novos casos. Entre os homens, o impacto é ainda maior: 23% dos diagnósticos tiveram relação com o consumo de tabaco.
Segundo o médico brasileiro José Luis Morero, do Instituto Alexander Fleming, 84% dos casos de câncer de pulmão têm histórico de tabagismo. Mesmo o consumo considerado “leve” aumenta o risco em comparação com quem nunca fumou.
Além disso, produtos como cigarros “light”, charutos e cigarros com mentol não reduzem o risco. Todos contêm substâncias que podem danificar o DNA e estimular o desenvolvimento de tumores.
Álcool: nenhum nível é totalmente seguro

O segundo hábito com maior impacto global é o consumo de álcool, responsável por 3,2% dos novos casos de câncer — cerca de 700 mil diagnósticos no ano analisado.
A própria OMS afirma que nenhuma forma de consumo de álcool está isenta de risco. O etanol presente nas bebidas pode alterar hormônios e gerar subprodutos capazes de provocar danos celulares.
O álcool está associado ao aumento do risco de pelo menos sete tipos de câncer, incluindo boca, garganta, esôfago, fígado, mama e colorretal.
A Associação Americana para Pesquisa do Câncer reforça que não há bebida “menos nociva”: todas representam risco porque contêm etanol.
Infecções e outros fatores emergentes
O estudo também amplia o olhar para além de hábitos comportamentais.
Infecções responderam por cerca de 10% dos casos preveníveis. Entre elas, destacam-se:
- A bactéria Helicobacter pylori, associada ao câncer de estômago.
- O vírus do papiloma humano (HPV), principal causa do câncer do colo do útero.
- Hepatites virais, relacionadas ao câncer de fígado.
Além disso, fatores como poluição do ar, exposição à radiação ultravioleta, obesidade, baixa taxa de amamentação e exposição ocupacional a substâncias cancerígenas também entram na lista.
Na América Latina e no Caribe, aproximadamente 28% dos casos em homens e 30% em mulheres estão ligados a fatores evitáveis.
Impacto global e desigualdades
Em 2022, o câncer causou 9,7 milhões de mortes no mundo. O estudo, considerado o primeiro a integrar de forma abrangente causas infecciosas, ambientais e comportamentais, oferece uma visão mais completa da carga global da doença.
Segundo André Ilbawi, da equipe de controle do câncer da OMS, entender como esses fatores se distribuem por sexo, idade e região ajuda governos a implementar políticas mais eficazes.
A carga de câncer prevenível foi maior entre homens (45% dos novos casos) do que entre mulheres (30%).
O que pode ser feito
Os especialistas defendem uma combinação de políticas públicas e ações individuais.
Entre as principais recomendações estão:
- Fortalecer políticas de controle do tabaco, com impostos, restrições e programas de cessação.
- Reduzir e regular o consumo de álcool.
- Ampliar a vacinação contra HPV e hepatite B.
- Investir no diagnóstico e tratamento de infecções como Helicobacter pylori.
- Incentivar alimentação equilibrada, atividade física e controle do peso.
- Reduzir a exposição à poluição e à radiação solar excessiva.
- Expandir programas de rastreamento e detecção precoce.
Como destacou Isabelle Soerjomataram, da Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer (IARC), enfrentar as causas preveníveis representa uma das maiores oportunidades para reduzir a carga global da doença.
O recado é claro: embora o câncer envolva múltiplos fatores, mudar hábitos e ampliar políticas de prevenção pode evitar milhões de diagnósticos nas próximas décadas.
[ Fonte: Infobae ]