Respirar parece automático — até o momento em que os pulmões deixam de funcionar. Foi exatamente nesse limite que uma equipe médica dos Estados Unidos decidiu tentar algo inédito: remover totalmente os pulmões de um paciente gravemente doente e mantê-lo vivo com um sistema artificial por dois dias, tempo suficiente para viabilizar um transplante duplo.
O feito foi detalhado em um estudo publicado na revista Med por cirurgiões da Universidade Northwestern. Dois anos depois do procedimento, o paciente segue bem, com os novos órgãos funcionando normalmente. Para os autores, a abordagem pode representar uma alternativa vital para pessoas que, até agora, simplesmente não tinham opção de tratamento.
Quando nem mesmo os aparelhos tradicionais são suficientes
A medicina já dispõe de tecnologias capazes de assumir parte da função de órgãos doentes. Um exemplo é a ECMO (oxigenação por membrana extracorpórea), usada para substituir temporariamente o coração e os pulmões enquanto o corpo se recupera.
Neste caso, porém, não havia tempo para recuperação.
O paciente, um homem de 33 anos, contraiu uma gripe severa que evoluiu para síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), condição em que líquido invade os pulmões e impede a troca adequada de gases. Ele também desenvolveu pneumonia bacteriana, e logo seus pulmões, rins e coração começaram a falhar. A única chance de sobrevivência era um transplante duplo de pulmão.
O problema: seu estado era tão crítico que os médicos temiam que ele não resistisse à cirurgia. Ao mesmo tempo, tentar preservar os pulmões destruídos poderia comprometer qualquer órgão transplantado.
Foi então que a equipe tomou uma decisão extrema.
Um sistema que substitui totalmente os pulmões
Os cirurgiões removeram completamente os pulmões do paciente e implantaram um dispositivo experimental chamado TAL (Total Artificial Lung, ou pulmão artificial total).
Diferentemente da ECMO, o TAL foi projetado para assumir integralmente a função pulmonar. O sistema drena o sangue do lado direito do coração, direciona esse fluxo para uma bomba externa e um oxigenador — que remove dióxido de carbono e adiciona oxigênio — e depois devolve o sangue já oxigenado diretamente ao átrio esquerdo do coração.
Esse arranjo mantém o coração funcionando de forma estável, mesmo em meio a um quadro de sepse.
Segundo o cirurgião torácico Ankit Bharat, líder do estudo, o desenho do sistema garante que o lado esquerdo do coração permaneça preenchido, permitindo que o organismo continue bombeando sangue para todo o corpo enquanto os pulmões estão ausentes.
Dois dias que fizeram toda a diferença
O TAL deu ao corpo do paciente o tempo que faltava.
Em poucas horas, seu quadro começou a melhorar. Dois dias após ser conectado ao sistema, os médicos realizaram o transplante duplo de pulmão, sem complicações graves. Sete dias depois da cirurgia, ele já não precisava mais de intubação. Oito semanas mais tarde, recebeu alta hospitalar.
Exames posteriores confirmaram que seus pulmões originais estavam tão comprometidos e infectados que ele dificilmente teria sobrevivido sem o transplante.
Hoje, dois anos depois, os pulmões transplantados seguem funcionando bem.
Para os pesquisadores, o caso demonstra que o TAL pode servir como uma “ponte” salvadora até o transplante em pacientes selecionados que, de outra forma, não teriam nenhuma alternativa.
Um vislumbre do futuro da tecnologia pulmonar
Por enquanto, os próprios autores tratam o avanço como uma prova de conceito. Apenas alguns centros médicos altamente especializados possuem estrutura e equipe capazes de montar sistemas semelhantes.
Ainda assim, a expectativa é padronizar o método e torná-lo mais acessível.
Os próximos passos incluem criar registros multicêntricos e colaborações internacionais para refinar protocolos — como estratégias de anticoagulação — e definir com mais precisão quais pacientes se beneficiariam mais da tecnologia e qual é o momento ideal para a intervenção.
A equipe também pretende usar dados moleculares coletados no estudo para identificar melhor os casos de lesão pulmonar irreversível.