As ondas de calor estão mudando o calendário climático do planeta. Além de se tornarem mais frequentes e intensas, elas começam cada vez mais cedo, terminam mais tarde e atingem temperaturas extremas em menos tempo. Um novo estudo revela que essa transformação ampliou a temporada anual de calor intenso em quase 40 dias nas últimas quatro décadas.
A pesquisa, publicada na revista científica Nature Climate Change, analisou dados climáticos globais entre 1979 e 2023. Os resultados indicam que o aquecimento global está alterando não apenas a intensidade das temperaturas, mas também o período do ano em que os eventos extremos acontecem.
Temporada de calor extremo aumentou quase 40 dias

Tradicionalmente associadas ao verão, as ondas de calor são períodos de vários dias consecutivos em que as temperaturas permanecem acima dos valores considerados normais para determinada região.
Entretanto, os pesquisadores descobriram que esses episódios estão ultrapassando os limites das estações mais quentes. Atualmente, o calor extremo avança sobre a primavera e permanece durante parte do outono.
De acordo com o estudo original publicado na Nature Climate Change, a primeira onda de calor do ano passou a ocorrer, em média, 3,29 dias mais cedo por década. Ao mesmo tempo, a última onda de calor começou a terminar 5,41 dias mais tarde a cada dez anos.
A combinação dessas tendências ampliou a temporada de calor extremo em aproximadamente 39 dias entre 1979 e 2023.
O fenômeno não está restrito a determinadas regiões. Segundo os cientistas, 92,1% das áreas terrestres analisadas apresentaram temporadas de calor mais longas.
Além disso, 72% dessas áreas registraram ondas de calor começando mais cedo, enquanto 79,6% observaram um prolongamento dos episódios até períodos mais avançados do calendário.
As regiões áridas apresentaram mudanças temporais mais acentuadas do que as áreas úmidas, evidenciando diferenças na forma como o aquecimento global afeta os ecossistemas.
Ondas de calor também estão chegando mais rapidamente
Outra descoberta importante envolve a velocidade com que as temperaturas atingem níveis extremos.
Os pesquisadores classificaram o início das ondas de calor em três categorias: rápido, moderado e lento. Essa divisão considera o intervalo necessário para que um episódio alcance seu pico de temperatura.
Entre 2001 e 2023, houve um aumento significativo da proporção de primeiras ondas de calor com início rápido nas áreas terrestres afetadas.
Isso significa que determinadas regiões podem enfrentar temperaturas perigosas em intervalos menores, dificultando a preparação de hospitais, autoridades e moradores.
Wenfang Xu, principal autor da pesquisa, alerta que a chegada antecipada e a rápida intensificação desses eventos podem reduzir ainda mais o tempo disponível para que sociedades e ecossistemas se adaptem.
O problema se torna especialmente preocupante para idosos, crianças, trabalhadores expostos ao sol e pessoas com doenças preexistentes.
O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo também identificou uma intensificação global do estresse térmico, com episódios mais frequentes, severos e prolongados nas últimas décadas.
Europa já enfrenta as consequências do calor prolongado

Os efeitos dessa transformação ficaram evidentes durante o verão de 2026 na Europa Ocidental.
Segundo dados do serviço climático europeu Copernicus, a região registrou seu verão mais quente desde o início das medições, com temperatura média de 21,7 °C, aproximadamente 2,5 °C acima da média de referência de 1991 a 2020.
O período foi marcado por ondas de calor intensas, secas prolongadas e incêndios florestais, além de impactos sobre os sistemas de energia, os recursos hídricos e a saúde pública.
Esses episódios demonstram como a expansão da temporada de calor pode aumentar a pressão sobre infraestruturas que foram planejadas para condições climáticas diferentes.
Sistemas de alerta precisarão acompanhar o novo calendário climático
Até recentemente, os sistemas de monitoramento concentravam suas análises principalmente na frequência, intensidade e duração das ondas de calor.
Agora, os pesquisadores defendem que outros três fatores sejam incorporados às avaliações: a data de início, o encerramento da temporada e a velocidade com que as temperaturas aumentam.
Essas informações podem ajudar governos a antecipar medidas preventivas, organizar serviços de emergência e proteger atividades agrícolas.
Uma pesquisa divulgada pela Columbia Climate School também identificou uma expansão dos períodos de calor perigoso para além dos meses tradicionalmente associados ao verão.
O novo cenário exige estratégias de adaptação que considerem um calendário climático menos previsível. Para os cientistas, compreender quando o calor extremo começa pode ser tão importante quanto saber a temperatura máxima que ele poderá alcançar.
A principal preocupação é que populações e ecossistemas tenham cada vez menos tempo para reagir a eventos que já representam uma ameaça crescente à saúde, à agricultura e ao equilíbrio ambiental.