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Ciência

Aquecimento global começa a alterar correntes profundas do Pacífico — e ameaça a vida marinha

O aumento da temperatura na superfície reduz o transporte de oxigênio para regiões intermediárias do maior oceano do planeta, diminuindo o espaço disponível para peixes e outras espécies.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O aquecimento global não está mudando apenas a temperatura da superfície dos oceanos. Um novo estudo mostra que o fenômeno também começa a modificar a circulação das águas profundas do Pacífico, alterando a quantidade de oxigênio disponível em diferentes regiões.

O problema pode ter consequências diretas para a vida marinha. Águas mais quentes conseguem armazenar menos oxigênio e, ao mesmo tempo, uma maior separação entre as camadas do oceano dificulta a renovação das águas em determinadas profundidades.

O resultado é uma redução potencial do espaço onde peixes, crustáceos e outros organismos conseguem sobreviver.

O oceano funciona como um enorme sistema de camadas

A misteriosa região do oceano que está esfriando enquanto o planeta aquece intriga cientistas
© unsplash

A água dos oceanos não é uniforme. Ela se organiza em diferentes camadas de acordo com fatores como temperatura, densidade e profundidade.

A camada superficial permanece em contato direto com a atmosfera e consegue absorver oxigênio. Por isso, essas águas são consideradas relativamente “jovens”.

Mais abaixo aparece a termoclina, uma região onde a temperatura diminui rapidamente com a profundidade. Essa diferença dificulta a mistura entre as águas superficiais e profundas.

Nas regiões mais profundas, a água pode permanecer isolada da atmosfera durante períodos muito longos. Quanto maior esse isolamento, mais “velha” ela se torna e menor tende a ser sua concentração de oxigênio.

A circulação oceânica é justamente o mecanismo responsável por transportar oxigênio e nutrientes entre essas diferentes regiões.

O problema é que o aquecimento global está interferindo nesse sistema.

O que está acontecendo no Pacífico

O estudo, publicado na revista científica AGU Advances, encontrou comportamentos diferentes em duas grandes regiões do Pacífico.

Nos giros subtropicais — enormes sistemas de correntes circulares localizados em latitudes médias — a água superficial absorve oxigênio da atmosfera e depois é transportada para camadas mais profundas.

Quando a superfície do oceano esquenta, porém, essa água se torna menos densa.

Isso reforça a estratificação do oceano, criando uma separação mais intensa entre as camadas. Como consequência, fica mais difícil para a água superficial afundar.

Menos água jovem e rica em oxigênio chega então às regiões intermediárias.

O efeito é particularmente importante entre 500 e 1.000 metros de profundidade no giro subtropical do Pacífico Norte.

Algumas águas estão ficando mais “velhas”

Os cientistas utilizam um indicador chamado “idade ideal da água” para estimar quanto tempo passou desde que uma massa de água esteve pela última vez em contato com a atmosfera.

Quanto maior essa idade, maior o período durante o qual processos biológicos tiveram oportunidade de consumir o oxigênio presente nela.

No Pacífico Norte subtropical, a redução da circulação significa que determinadas massas de água permanecem mais tempo sem renovação.

Na prática, elas estão ficando mais “velhas”.

No Pacífico tropical, porém, acontece algo diferente.

Essa região abriga as chamadas zonas de mínimo oxigênio, áreas naturalmente pobres nesse gás porque recebem águas profundas que passaram longos períodos sem contato com a atmosfera.

Com o aquecimento, as correntes responsáveis por transportar essas águas antigas também enfraquecem.

Menos água profunda sobe até a região tropical. Com isso, aumenta proporcionalmente a influência de águas laterais mais jovens, reduzindo a idade média da água.

Água mais jovem não significa necessariamente mais oxigênio

Fratura Sob O Oceano1
© Marcin Jucha – Shutterstock

Poderia parecer uma boa notícia, mas existe um problema.

Mesmo que águas relativamente mais jovens cheguem a determinadas regiões tropicais, temperaturas mais elevadas reduzem a capacidade da água de dissolver oxigênio.

Isso significa que dois mecanismos estão ocorrendo simultaneamente: as correntes oceânicas estão mudando e a própria química da água está sendo afetada pelo aumento da temperatura.

É a combinação desses processos que determina quanto oxigênio permanecerá disponível.

Para entender melhor essas mudanças, os pesquisadores utilizaram um modelo computacional capaz de reproduzir tanto a circulação física do oceano quanto processos químicos e biológicos.

Os resultados também foram comparados com projeções de 14 modelos climáticos internacionais utilizados no CMIP6, um dos principais conjuntos de simulações climáticas empregados pela comunidade científica.

Um aumento de 4 °C revelou mudanças na circulação

Os pesquisadores simularam aumentos de 4 °C na temperatura da superfície do mar em diferentes regiões ao longo de 100 anos.

Em alguns experimentos, o aquecimento foi aplicado globalmente. Em outros, os cientistas isolaram determinadas regiões, como o Pacífico e o oceano Austral.

Isso permitiu descobrir quais mudanças eram provocadas pelo aquecimento local e quais chegavam de regiões distantes.

Quando o Pacífico foi aquecido, o aumento da estratificação deslocou parte da circulação subtropical para regiões mais superficiais. Como resultado, diminuiu o transporte de água oxigenada para as camadas intermediárias.

O aquecimento do oceano Austral produziu outro efeito. Alterações nessa região se propagaram até o Pacífico tropical por meio de ondas oceânicas e enfraqueceram a subida de águas profundas, antigas e pobres em oxigênio.

Isso mostra como mudanças em uma parte do planeta podem modificar a circulação oceânica a milhares de quilômetros de distância.

Menos oxigênio significa menos espaço para a vida marinha

Uma das consequências mais preocupantes é a redução do habitat disponível para diversas espécies.

Peixes, crustáceos e outros organismos possuem limites específicos de temperatura e concentração de oxigênio nos quais conseguem sobreviver.

Se a água esquenta enquanto os níveis de oxigênio diminuem, a região habitável pode se tornar progressivamente menor.

As zonas tropicais de mínimo oxigênio podem apresentar alterações relativamente mais moderadas durante o próximo século. Ainda assim, os pesquisadores alertam que pequenas variações podem ser importantes em regiões onde a disponibilidade desse gás já é naturalmente baixa.

Para acompanhar essas transformações, os cientistas defendem a expansão do programa Biogeochemical-Argo, uma rede internacional de flutuadores robóticos que percorrem os oceanos medindo temperatura, oxigênio e outras propriedades da água.

Esse monitoramento, combinado com modelos climáticos cada vez mais precisos, pode ajudar a revelar como as mudanças nas grandes correntes do Pacífico vão transformar os ecossistemas marinhos nas próximas décadas.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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