Desde que os primeiros fósseis de Homo floresiensis foram descobertos em 2003 na ilha de Flores, na Indonésia, essa pequena espécie humana desperta fascínio entre cientistas e o público. Com pouco mais de um metro de altura, ela rapidamente ganhou o apelido de “hobbit”, em referência aos personagens criados por J.R.R. Tolkien. Agora, um novo estudo publicado na revista Science Advances oferece uma visão diferente sobre o modo de vida desses antigos hominíneos: em vez de caçadores habilidosos, eles podem ter sobrevivido aproveitando restos de presas abatidas por dragões-de-komodo.
Marcas nos ossos revelam quem chegou primeiro à refeição
A pesquisa foi conduzida por uma equipe internacional de cientistas em colaboração com o Programa de Origens Humanas do Smithsonian, nos Estados Unidos.
Os pesquisadores analisaram mais de 10.061 fósseis, fragmentos ósseos e outros materiais arqueológicos encontrados na famosa caverna Liang Bua, principal sítio onde os restos de Homo floresiensis foram descobertos.
O objetivo era reconstruir como esses pequenos hominíneos obtinham alimento e verificar se realmente eram capazes de caçar grandes animais.
A principal pista veio dos ossos fossilizados de Stegodon florensis insularis, um pequeno parente extinto dos elefantes que habitava a ilha.
Os cientistas compararam as marcas deixadas pelos dentes dos dragões-de-komodo com os cortes produzidos por ferramentas de pedra utilizadas pelos antigos humanos.
O padrão encontrado foi bastante revelador.
Os dragões ficavam com a melhor parte
Para interpretar corretamente as marcas fósseis, os pesquisadores observaram dragões-de-komodo modernos durante a alimentação no Zoo Atlanta, nos Estados Unidos.
As análises mostraram que os répteis costumam atacar primeiro as regiões do corpo que concentram maior quantidade de carne, como pernas e ombros.
Nos fósseis de Stegodon, exatamente essas áreas apresentavam numerosas marcas de dentes.
Já os cortes produzidos pelas ferramentas de Homo floresiensis estavam concentrados na cabeça, no pescoço e nas patas — partes normalmente menos ricas em carne.
Segundo os autores do estudo, isso sugere que os pequenos hominíneos chegavam depois dos dragões e aproveitavam apenas os restos das carcaças.
Como os dragões-de-komodo possuem um olfato extremamente apurado e conseguem localizar animais mortos a quilômetros de distância, seria muito difícil que uma carcaça permanecesse intacta tempo suficiente para ser encontrada primeiro pelos humanos.
E o domínio do fogo?
Outra questão importante investigada pela equipe foi o uso do fogo.
Durante anos, parte dos pesquisadores acreditava que Homo floresiensis dominava essa tecnologia, o que indicaria um comportamento relativamente sofisticado.
Para testar essa hipótese, a equipe examinou cuidadosamente todas as evidências de combustão encontradas nas diferentes camadas arqueológicas da caverna Liang Bua.
Os resultados indicaram que os vestígios de fogueiras pertencem exclusivamente ao período de ocupação de Homo sapiens, muito depois do desaparecimento de Homo floresiensis.
Segundo os pesquisadores, não existem evidências confiáveis de que os “hobbits” tenham utilizado fogo entre aproximadamente 774 mil e 60 mil anos atrás, período em que viveram na ilha.
Isso enfraquece uma das hipóteses mais discutidas sobre suas capacidades tecnológicas.
Um modo de vida mais simples do que se imaginava

As novas conclusões sugerem que Homo floresiensis talvez dependesse muito mais da coleta de recursos disponíveis do que da caça organizada.
Isso não significa que fossem incapazes de fabricar ferramentas.
Pelo contrário, evidências mostram que eles produziam instrumentos de pedra relativamente eficientes para retirar carne dos ossos. O estudo apenas indica que esses utensílios provavelmente eram usados após grandes predadores já terem consumido a maior parte das presas.
Essa estratégia de aproveitar restos deixados por outros animais é conhecida como necrófaga e também foi adotada por diversas espécies ao longo da evolução.
O mistério dos “hobbits” continua longe de ser resolvido
Apesar dos novos resultados, os cientistas ressaltam que a história de Homo floresiensis ainda está repleta de perguntas sem resposta.
Desde sua descoberta, essa espécie vem sendo alvo de intensos debates. Alguns pesquisadores chegaram a sugerir que seus fósseis pertenciam a indivíduos modernos com alguma doença genética, hipótese hoje amplamente rejeitada.
A maioria dos especialistas considera que Homo floresiensis realmente representa uma espécie distinta do gênero Homo, adaptada ao isolamento da ilha de Flores por centenas de milhares de anos.
O novo estudo acrescenta mais uma peça importante a esse quebra-cabeça evolutivo. Em vez da imagem de pequenos caçadores dominando o fogo e abatendo grandes animais, surge um cenário diferente: um grupo de hominíneos que sobrevivia explorando um ecossistema dominado por alguns dos maiores lagartos do planeta e aproveitando, com inteligência e oportunismo, aquilo que os dragões-de-komodo deixavam para trás.