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Ciência

Os microplásticos estão minando a capacidade do oceano de conter o aquecimento global — e a ciência começa a medir o tamanho do problema

O oceano é o maior aliado natural do planeta contra o aquecimento global. Mas um novo estudo alerta: a poluição por microplásticos está enfraquecendo esse papel vital. Ao interferir na absorção de CO₂ e calor, essas partículas invisíveis podem transformar o mar de escudo climático em fonte adicional de emissões.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Por décadas, o oceano funcionou como um amortecedor silencioso do clima da Terra, absorvendo grande parte do calor e do dióxido de carbono gerados pela atividade humana. Esse equilíbrio, porém, pode estar ameaçado por um inimigo microscópico. Pesquisadores alertam que os microplásticos — já onipresentes nos mares — estão alterando processos fundamentais que permitem ao oceano regular a temperatura do planeta.

O papel climático do oceano está sob pressão

Microplast
© Unsplash

Segundo dados das Nações Unidas, o oceano é responsável por cerca de 50% do oxigênio que respiramos, absorve aproximadamente 30% das emissões globais de dióxido de carbono e captura até 90% do excesso de calor produzido por essas emissões. Isso o torna o maior sumidouro de carbono do planeta e uma peça-chave na contenção do aquecimento global.

No entanto, um novo estudo publicado na revista Journal of Hazardous Materials: Plastics indica que essa função essencial pode estar sendo comprometida. A pesquisa sugere que a presença crescente de microplásticos nos oceanos interfere em mecanismos físicos, químicos e biológicos responsáveis pela captura de carbono e calor.

Um elo ignorado por tempo demais

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, que analisaram criticamente 89 estudos científicos para entender como os microplásticos afetam a saúde do oceano. A conclusão é clara: a relação entre essas partículas e a regulação térmica da Terra foi amplamente subestimada.

De acordo com Ihsanullah Obaidullah, professor associado e autor do estudo, os microplásticos provocam alterações sutis, porém cumulativas. “Com o tempo, esses efeitos podem levar ao aquecimento dos oceanos, à acidificação das águas e à perda de biodiversidade”, afirma. As consequências vão além do meio ambiente e ameaçam a segurança alimentar e comunidades costeiras em escala global.

Como os microplásticos interferem no ciclo do carbono

Microplásticos No Seu Corpo (2)
© iStock

Os microplásticos afetam o oceano de várias formas. Eles podem alterar a atividade do fitoplâncton — organismos microscópicos responsáveis por uma parte significativa da absorção de CO₂ por meio da fotossíntese. Além disso, essas partículas servem como superfícies para microrganismos, mudando cadeias alimentares e processos biogeoquímicos.

Outro ponto crítico é a capacidade dos microplásticos de transportar poluentes e metais pesados, agravando o estresse químico sobre a vida marinha. Esse conjunto de fatores reduz a eficiência do oceano em atuar como sumidouro de carbono, enfraquecendo um dos principais freios naturais do aquecimento global.

De sumidouro a emissor: um risco real

Se o oceano perder sua capacidade de absorver dióxido de carbono e calor, o cenário pode se inverter. Em vez de reter emissões, ele pode começar a devolvê-las à atmosfera. Esse fenômeno já foi observado em grandes florestas tropicais da América do Sul, do Sudeste Asiático e da África, que passaram de sumidouros a fontes líquidas de carbono.

O alerta é ainda mais grave diante das projeções climáticas atuais. Cientistas estimam que 2026 tem grande chance de se tornar o quarto ano consecutivo com temperaturas médias globais cerca de 1,4°C acima dos níveis pré-industriais, aproximando perigosamente o planeta do limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris.

Produção de plástico fora de controle

O estudo se soma a dados preocupantes da ONU. Um relatório de 2025 estima que a produção anual de plástico já ultrapassa 400 milhões de toneladas, sendo cerca de metade destinada a produtos de uso único. Sem mudanças significativas, esse volume pode triplicar até 2060.

Embora os plásticos sejam essenciais em setores como aviação, eletrônica e medicina, os pesquisadores alertam que o consumo excessivo e o descarte inadequado representam ameaças diretas à sustentabilidade ambiental e à segurança alimentar.

Microplásticos e clima exigem uma resposta integrada

Uma das principais conclusões do estudo é que a poluição por microplásticos e a crise climática não podem mais ser tratadas como problemas separados. “Os efeitos das mudanças climáticas podem ser mitigados se medidas adequadas forem tomadas para reduzir a produção e a liberação de microplásticos”, destaca Obaidullah.

O próximo passo da equipe será quantificar com mais precisão o impacto climático dessas partículas e desenvolver soluções integradas, que unam políticas de redução do plástico, inovação tecnológica e estratégias climáticas globais.

 

[ Fonte: Euronews ]

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