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Parque paulista vira exemplo de preservação ao resistir a incêndios por mais de uma década

No interior de São Paulo, uma área de Mata Atlântica sobrevive intacta há mais de 10 anos — graças à tecnologia, educação ambiental e estratégias preventivas que poderiam inspirar todo o país.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Quando o período de estiagem chega, a natureza acende um alerta: basta uma faísca para que incêndios devastem hectares de mata e coloquem em risco animais silvestres. Mas em Teodoro Sampaio (SP), um parque estadual virou símbolo de resistência: o Parque Estadual Morro do Diabo não registra focos de incêndio há mais de uma década — um feito raro no Brasil.

Tecnologia e prevenção garantem floresta em pé

Parque paulista vira exemplo de preservação ao resistir a incêndios por mais de uma década
© https://x.com/semilsp

O último incêndio registrado na unidade aconteceu em 2012. Desde então, o trabalho contínuo de prevenção tem feito a diferença. Eriqui Inazaki, gestor do parque há 11 anos, explica que as ações começam cedo, ainda em janeiro: “Articulamos com prefeituras e usinas para abrir mais de 180 km de aceiros. Também contamos com bombeiros civis, rondas diárias e monitoramento por satélite, o que permite agir rápido em qualquer princípio de incêndio”, afirma.

Essa estratégia é reforçada pela integração com a Polícia Militar Ambiental e a Polícia Militar Rodoviária, além do programa estadual São Paulo sem Fogo, que intensificou a presença de equipes especializadas. A área conta com mais de 40 km de margem do Rio Paranapanema, veículos 4×4 equipados, bombas costais, sopradores e vigilância constante.

Um dos aliados mais modernos é o sistema Pantera, que detecta focos de calor via satélite. Mesmo com a ausência de incêndios dentro dos limites do parque, queimadas ainda ocorrem em áreas vizinhas de cana e pastagem. Para evitar que o fogo atravesse para a reserva, a comunicação rápida com proprietários rurais e a Defesa Civil é essencial.

Um baú de biodiversidade no coração do estado

O Parque Estadual Morro do Diabo é a maior área contínua de Mata Atlântica no interior paulista. São cerca de 33.845 hectares de floresta estacional semidecidual, segundo o Guia de Áreas Protegidas da Semil. Trata-se de uma das quatro maiores áreas do tipo no estado — uma preciosidade ecológica.

Essa boa conservação permite a sobrevivência de espécies ameaçadas como anta, queixada, bugio, onça-parda e a emblemática onça-pintada. “São animais topo de cadeia que, se não cuidarmos agora, podem desaparecer em poucos anos”, alerta Eriqui.

O verdadeiro símbolo da região, no entanto, é o mico-leão-preto. Já considerado extinto, o primata encontrou no parque sua principal população livre no mundo: cerca de 1.300 indivíduos monitorados. “Temos muito orgulho de falar do mico-leão-preto. Há mais de 40 anos, pesquisas acompanham essa espécie aqui. É um animal que poderia não existir mais, mas está ‘guardadinho’ com a gente”, comemora o gestor.

A flora também impressiona: o parque abriga a maior reserva de peroba-rosa, árvore importante para programas de reflorestamento e recuperação ambiental. “Perder uma árvore centenária ou uma onça-pintada aqui é uma perda para toda a humanidade, não apenas para Teodoro Sampaio”, resume Eriqui.

Turismo ambiental e educação como ferramentas de proteção

Além da conservação ambiental, o parque também é um polo de turismo ecológico e educação. Trilhas e ciclorrotas atraem visitantes de várias cidades, e atividades educativas recebem entre 2.000 e 3.000 estudantes por mês, aproximando a população local da causa ambiental.

“Recebemos excursões escolares todos os dias. Isso ajuda a criar um vínculo com a floresta desde cedo, o que é fundamental para formar futuros defensores do meio ambiente”, explica o gestor.

Outro desafio enfrentado pela equipe é o atropelamento de animais silvestres. Um trecho de 14 km da rodovia que corta o parque recebeu alambrados, radares e passagens de fauna. As câmeras já registraram até onças usando os corredores ecológicos — prova de que as medidas estão funcionando.

Guardião da Mata Atlântica

Combinar tecnologia, educação e ação comunitária tem transformado o Parque Estadual Morro do Diabo em um modelo de gestão ambiental. Ao proteger árvores centenárias, espécies ameaçadas e ecossistemas únicos, o parque assegura que as futuras gerações ainda possam conhecer esse pedaço raro da Mata Atlântica.

Como define Eriqui: “O sentimento é de orgulho e responsabilidade. Cuidar desse parque é como cuidar de um baú muito precioso”.

[Fonte: G1 – Globo]

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