Os incêndios que devastaram Los Angeles em janeiro — incluindo os Eaton e Palisades fires, os segundos e terceiros mais destrutivos da história da Califórnia — já não são exceções. Com 38 mil hectares queimados, 16 mil edificações destruídas e 31 mortes, eles simbolizam um fenômeno que se repete em escala global: o avanço explosivo dos megaincêndios.
Segundo um novo estudo publicado na revista Science, 10% das terras do planeta estão hoje sob alto risco de incêndios próximos a áreas habitadas.
Incêndios mais letais e caros
A pesquisa, conduzida por cientistas das universidades da Tasmânia e da Califórnia, Merced, analisou registros de desastres entre 1980 e 2023 usando bancos de dados internacionais e da seguradora Munich Re.
Os resultados mostram uma tendência alarmante: 43% dos 200 incêndios mais caros da história ocorreram nos últimos 10 anos — um aumento de quatro vezes no número de catástrofes econômicas e de três vezes no total de incêndios com mais de 10 vítimas fatais desde 1980.
“O aumento dos desastres por incêndio não é uma percepção — é uma realidade”, afirmou Crystal Kolden, diretora do Fire Resilience Center da Universidade da Califórnia. “Antes, os incêndios afetavam áreas isoladas. Agora, estão matando mais pessoas e destruindo mais casas e infraestrutura.”
Nos Estados Unidos, os gastos federais com combate ao fogo quase quadruplicaram nas últimas duas décadas, chegando a US$ 4,4 bilhões em 2021. Mesmo assim, tragédias como as de Los Angeles, Lahaina (Havaí) e Durkee (Oregon) continuam se repetindo.
10% do planeta sob ameaça direta
Além de analisar o passado, os cientistas desenvolveram um modelo que mapeia as regiões com maior risco futuro de incêndios próximos a comunidades humanas.
O resultado: 10% da superfície terrestre da Terra está em zonas críticas, especialmente América do Norte, Mediterrâneo, América do Sul, Austrália e África do Norte. O modelo chegou a prever com precisão desastres como os incêndios de Los Angeles e o Las Tablas, no Chile, em 2024.
“Isso oferece um mapa de onde os próximos desastres são mais prováveis”, explicou David Bowman, diretor do Fire Center da Universidade da Tasmânia. “Mas as mudanças climáticas mudaram completamente as regras do jogo. Precisamos aprender a conviver com o fogo — não apenas combatê-lo.”
Clima extremo: o novo combustível dos incêndios
O estudo mostra que as condições meteorológicas extremas que alimentam os incêndios — conhecidas como “disaster weather” — tornaram-se muito mais comuns.
Desde 1980, os episódios de secas severas triplicaram, enquanto as condições de calor e ar seco favoráveis ao fogo mais que dobraram. Metade dos desastres analisados ocorreu sob os piores índices climáticos já registrados.
“Grande parte dos incêndios ocorreu sob condições infernais que tornaram o controle impossível”, disse o climatologista John Abatzoglou, também da UC Merced. “Esses padrões extremos estão se tornando mais prováveis, aumentando o risco de tragédias em todo o mundo.”
O papel decisivo das mudanças climáticas
Para os pesquisadores, não há mais dúvidas sobre o papel do aquecimento global.
“É inequívoco: as mudanças climáticas estão impulsionando esses incêndios”, afirmou o autor principal Calum Cunningham, da Universidade da Tasmânia. “Não são apenas incêndios maiores — são incêndios que ocorrem sob condições meteorológicas tão extremas que se tornam praticamente imparáveis.”
A mensagem do estudo é clara: o planeta está entrando em uma era de megaincêndios impulsionados pelo clima. E enquanto as temperaturas continuam subindo, as chamas que consomem florestas e cidades podem se tornar o novo normal.