O que leva animais selvagens a repetir um comportamento que, em humanos, costuma estar ligado ao lazer — ou ao excesso? Uma nova pesquisa conduzida na África trouxe evidências intrigantes envolvendo chimpanzés e frutas naturalmente fermentadas. Os resultados não apenas chamam atenção pelo inusitado, mas também podem ajudar a explicar um traço biológico compartilhado entre grandes primatas e seres humanos.
Evidências químicas revelam consumo frequente

Pesquisadores da Universidade da Califórnia confirmaram que chimpanzés selvagens em Uganda apresentam sinais recorrentes de ingestão de álcool na natureza. A conclusão veio após análises de urina realizadas no Parque Nacional de Kibale, onde foram identificados metabólitos associados ao processamento de etanol no organismo dos animais.
O estudo, publicado na revista científica Biology Letters, detectou a substância etil glicuronídeo — um marcador confiável da presença de álcool no corpo — em 17 das 20 amostras coletadas. Na prática, isso indica que a grande maioria dos chimpanzés analisados havia consumido recentemente algum nível de etanol.
Segundo os pesquisadores, a quantidade ingerida por alguns indivíduos pode ser comparável a cerca de duas doses padrão de bebida alcoólica humana ao longo de 24 horas. O achado fortalece a chamada “hipótese do macaco bêbado”, que sugere que o consumo de frutas fermentadas faz parte de uma herança evolutiva compartilhada entre humanos e outros grandes primatas.
A fruta por trás do fenômeno
O principal “responsável” pelo comportamento é a maçã-estrela africana (Gambeya albida). Esse fruto passa por fermentação natural ainda na árvore, produzindo pequenas quantidades de álcool.
Isoladamente, a concentração alcoólica da fruta é baixa. No entanto, o volume consumido pelos chimpanzés faz toda a diferença. Parte dos animais observados chega a ingerir até 4,5 quilos de polpa por dia — quantidade suficiente para elevar significativamente a ingestão total de etanol.
O trabalho de campo foi realizado em agosto de 2025 e liderado pelo pesquisador Aleksey Maro, que monitorou 19 chimpanzés da espécie Pan troglodytes. Os métodos de coleta precisaram ser adaptados às condições da floresta. Como não é possível usar bafômetros em animais selvagens, a equipe utilizou hastes com bolsas plásticas para recolher urina diretamente ou a partir de poças no solo.
Posteriormente, os cientistas aplicaram tiras reagentes comerciais semelhantes às usadas em testes toxicológicos humanos. Os resultados foram claros: cerca de 85% dos chimpanzés apresentaram níveis de álcool acima de 300 nanogramas por mililitro, confirmando que seus organismos realmente metabolizam o etanol.
Outro ponto que chamou atenção foi a diferença entre os grupos. Machos adultos tiveram resultados positivos com mais frequência do que fêmeas e indivíduos jovens, embora as razões para isso ainda não estejam totalmente claras.
O que isso pode revelar sobre a evolução
A descoberta abre várias frentes de investigação. Pesquisadores agora querem entender se o consumo de álcool influencia comportamentos como agressividade, interação social ou até ciclos de fertilidade entre os primatas.
Robert Dudley, coautor do estudo, destacou que as concentrações encontradas superam alguns limites usados em análises médicas e criminais aplicadas a humanos. Ainda assim, permanece uma dúvida central: os chimpanzés procuram deliberadamente frutas mais fermentadas ou o consumo elevado é apenas consequência da dieta?
A resposta pode ter implicações importantes. Se houver preferência ativa por frutas com mais etanol, isso reforçaria a ideia de que a atração pelo álcool tem raízes biológicas profundas ligadas à busca por alimentos energéticos.
Os cientistas também pretendem investigar outras espécies frugívoras, como morcegos que se alimentam de frutas, para verificar se padrões semelhantes aparecem.
No panorama geral, o estudo acrescenta mais uma peça ao quebra-cabeça evolutivo. Ele sugere que a relação entre primatas e substâncias fermentadas pode ser muito mais antiga — e mais natural — do que se imaginava.
[Fonte: Olhar digital]