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Ciência

Um pedaço de Marte que caiu na África guarda um segredo que a NASA procura há décadas — e ele pode mudar o que sabemos sobre o planeta vermelho

Um meteorito com 4,48 bilhões de anos revelou sinais claros de água em seu interior. O achado, obtido com técnicas de imagem não destrutivas, reforça a ideia de que o Marte primitivo foi muito mais úmido do que se imaginava e conecta evidências encontradas na Terra com dados recentes enviados por robôs no próprio planeta.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um fragmento de Marte que chegou à Terra após um impacto colossal voltou a surpreender os cientistas. Conhecido como NWA 7034 — ou Black Beauty —, o meteorito caiu no noroeste da África e é considerado um dos materiais marcianos mais antigos já encontrados. Agora, uma nova análise revelou algo que durante décadas parecia improvável: a presença significativa de água presa em sua estrutura interna.

O estudo, publicado no repositório científico arXiv, foi conduzido por pesquisadores da Universidade Técnica da Dinamarca e oferece pistas valiosas sobre as primeiras fases geológicas de Marte — um período que ainda permanece envolto em incertezas.

Um fragmento do Marte primordial

Com idade estimada em 4,48 bilhões de anos, o meteorito Black Beauty funciona como uma cápsula do tempo do planeta vermelho. Diferentemente da maioria dos meteoritos marcianos conhecidos, ele é composto por uma mistura complexa de materiais formados em diferentes momentos da história de Marte, o que o torna particularmente valioso para os cientistas.

A rocha teria sido lançada ao espaço após um grande impacto na superfície marciana, viajando por milhões de anos até cair na Terra. Desde então, tornou-se uma das poucas amostras diretas disponíveis para estudar o Marte primitivo sem depender exclusivamente de sondas e robôs.

Tecnologia de imagem sem destruir a amostra

Durante muito tempo, o estudo de meteoritos exigiu métodos invasivos, como cortes ou pulverização de fragmentos, o que limitava análises futuras. Neste caso, os pesquisadores adotaram uma abordagem diferente, usando tomografia computadorizada por raios X combinada com tomografia por nêutrons.

Enquanto os raios X permitem visualizar a estrutura interna da rocha, a tomografia por nêutrons é especialmente sensível ao hidrogênio — elemento-chave da molécula de água. A combinação dessas técnicas possibilitou observar o interior do meteorito em três dimensões, sem alterar sua composição original.

O resultado foi a identificação de regiões internas com características inesperadas, abrindo caminho para uma nova interpretação sobre a presença de água em Marte nos seus primórdios.

Pequenos clastos, grande quantidade de água

A análise revelou a existência de pequenos fragmentos internos, chamados clastos, ricos em oxihidróxidos de ferro. Esses clastos representam apenas cerca de 0,4% do volume total da amostra analisada, mas concentram aproximadamente 11% de toda a água detectada no fragmento estudado.

No total, o meteorito contém cerca de 6.000 partes por milhão de água — um valor expressivo para um planeta que hoje é sinônimo de aridez extrema. A distribuição desses compostos sugere que a água não era um elemento raro ou isolado, mas possivelmente mais difundido na crosta marciana antiga do que se acreditava.

Conexões com Marte observado hoje

Mistério Em Marte (2)
© Imagem de Marte tirado por Rover Curiosity. NASA JLP

Os resultados dialogam diretamente com observações recentes feitas pelo rover Perseverance, da NASA, no interior da cratera Jezero. Ali, o robô identificou evidências de antigos ambientes aquáticos, como sedimentos depositados por lagos e rios há bilhões de anos.

Embora o meteorito Black Beauty tenha se originado em uma região diferente do planeta, a convergência entre dados obtidos na Terra e em Marte fortalece a hipótese de que a água líquida foi um elemento comum na superfície marciana durante suas primeiras eras geológicas.

Um laboratório marciano na Terra

Para os cientistas, o Black Beauty é mais do que um meteorito raro: trata-se de uma amostra natural de Marte disponível em solo terrestre. O uso de técnicas não destrutivas abre novas possibilidades para reexaminar outros meteoritos marcianos já catalogados, extraindo informações inéditas sem comprometer seu valor científico.

Enquanto missões futuras aguardam a complexa tarefa de trazer amostras diretamente de Marte, fragmentos como esse continuam oferecendo respostas fundamentais. Cada nova descoberta reforça a ideia de que o planeta vermelho já foi um mundo muito mais dinâmico — e potencialmente habitável — do que a paisagem seca que vemos hoje.

 

[ Fonte: El Confidencial ]

 

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