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Ciência

Pesquisadores descobriram que os primeiros ancestrais humanos viveram isolados no fundo do oceano

Um novo estudo mudou completamente a imagem do surgimento da vida complexa na Terra. Os primeiros ancestrais de animais e plantas talvez tenham sobrevivido isolados em ambientes extremos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante muito tempo, os cientistas imaginaram que a vida complexa surgiu em oceanos relativamente confortáveis, ricos em oxigênio e cheios de possibilidades evolutivas. Parecia uma explicação lógica. Afinal, organismos mais sofisticados precisariam de ambientes estáveis para prosperar. Mas uma nova pesquisa publicada por cientistas dos Estados Unidos e do Canadá está desmontando essa visão clássica. E o cenário revelado é muito mais estranho, hostil e fascinante do que se imaginava até agora.

Os primeiros organismos complexos surgiram em um planeta quase sem oxigênio

Há cerca de 1,7 bilhão de anos, a Terra era um lugar radicalmente diferente do mundo atual. A atmosfera possuía menos de 1% do oxigênio disponível hoje, grande parte dos oceanos era praticamente inabitável e os ecossistemas eram dominados quase exclusivamente por formas microscópicas de vida simples.

Foi nesse ambiente extremo que surgiram os primeiros eucariotos conhecidos — organismos que dariam origem, milhões de anos depois, a animais, plantas e fungos.

Esses seres já possuíam estruturas celulares muito mais sofisticadas do que bactérias primitivas. Tinham núcleo organizado, compartimentos internos complexos e provavelmente já utilizavam mitocôndrias para produzir energia a partir do oxigênio.

O problema é que quase não havia oxigênio disponível.

Segundo pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e da Universidade McGill, a vida complexa não se espalhava livremente pelos oceanos. Na realidade, ela parece ter sobrevivido confinada em pequenas regiões submarinas onde o oxigênio existia em quantidades mínimas, formando algo parecido com “refúgios” biológicos isolados.

Para chegar a essa conclusão, os cientistas analisaram sedimentos extremamente antigos encontrados nas bacias de McArthur e Birrindudu, no norte da Austrália. Hoje a região é seca e desértica, mas há bilhões de anos era coberta por mares rasos e fundos oceânicos lamacentos.

Os pesquisadores estudaram minerais e elementos químicos capazes de revelar a presença de oxigênio em oceanos antigos. Molibdênio, urânio, vanádio e pirita funcionaram como uma espécie de arquivo químico fossilizado da Terra primitiva.

Depois, compararam essas informações com a distribuição de microfósseis eucariotos encontrados na região.

E o padrão chamou atenção imediatamente.

A vida complexa pode ter passado milhões de anos presa em “oásis” submarinos

Os fósseis dos primeiros organismos complexos apareciam quase exclusivamente em sedimentos associados ao fundo marinho parcialmente oxigenado. Havia pouquíssimos sinais de que esses seres habitassem livremente a coluna d’água dos oceanos.

Isso sugere algo surpreendente: durante centenas de milhões de anos, a vida complexa permaneceu limitada a pequenos “oásis” submarinos onde as condições permitiam sua sobrevivência.

Essa descoberta ajuda a explicar um dos maiores mistérios da evolução.

Embora análises genéticas indiquem que os eucariotos surgiram relativamente cedo na história do planeta, eles demoraram quase um bilhão de anos para apresentar grandes mudanças anatômicas ou ecológicas. Durante todo esse período, a evolução parecia avançar de maneira extremamente lenta.

Agora os cientistas acreditam ter encontrado uma possível resposta.

Se os únicos ambientes habitáveis eram pequenas áreas isoladas no fundo oceânico, as oportunidades para expansão, diversificação e competição evolutiva eram mínimas. A vida complexa não dominava a Terra. Ela simplesmente tentava sobreviver em regiões microscópicas de um planeta ainda hostil demais.

E existe outro detalhe fascinante.

Esses ambientes bentônicos — ecossistemas ligados ao leito marinho — talvez tenham sido o palco perfeito para um dos eventos mais importantes de toda a história biológica: o surgimento das mitocôndrias.

A teoria mais aceita afirma que as mitocôndrias eram originalmente bactérias independentes que acabaram sendo incorporadas por células ancestrais em uma relação simbiótica revolucionária. E os fundos oceânicos pobres em oxigênio podem ter criado as condições ideais para esse encontro acontecer.

Um evento climático extremo pode ter libertado a vida complexa

Segundo o estudo, essa situação permaneceu relativamente estável até cerca de 720 milhões de anos atrás, durante um dos períodos mais extremos da história do planeta: a chamada Terra Bola de Neve.

Naquela época, enormes camadas de gelo cobriram grande parte da superfície terrestre. Muitos ecossistemas entraram em colapso, oceanos foram drasticamente alterados e a vida enfrentou uma crise global gigantesca.

Mas paradoxalmente, esse desastre pode ter acelerado a evolução.

Quando o gelo começou a recuar, os níveis de oxigênio aumentaram e os eucariotos finalmente conseguiram expandir-se para novos ambientes. Pouco tempo depois surgiriam os primeiros organismos multicelulares complexos do período Ediacarano, abrindo caminho para toda a biodiversidade visível que existe hoje.

O mais impressionante é que, segundo os pesquisadores, tudo isso talvez tenha começado em ambientes escuros, lamacentos e quase sem oxigênio no fundo do oceano.

A vida complexa não nasceu em mares abundantes e confortáveis.

Ela sobreviveu durante milhões de anos escondida em pequenos refúgios submarinos de um planeta que ainda estava muito longe de parecer habitável.

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