No Brasil, a famosa recomendação de não jogar papel higiênico no vaso sanitário segue sendo motivo de debate. Enquanto em outros países isso é prática comum, por aqui, a mistura entre limitações de infraestrutura e ausência de padrões técnicos claros faz com que o hábito de descartar o papel no lixo continue. Mas o problema vai além do encanamento: ele começa ainda na composição do papel e nas normas que regem sua fabricação.
O que faz um papel se desintegrar na água?

Para que um papel higiênico possa ser descartado diretamente no vaso, ele precisa ter capacidade de desagregação, ou seja, se desfazer facilmente em contato com a água. Isso depende diretamente do processo industrial e da quantidade de aditivos usados.
Segundo a professora Lúcia Coelho, da UFABC, papéis que recebem substâncias para ficar mais macios — especialmente os chamados “extra suaves” — tendem a demorar mais para se desintegrar, justamente porque as fibras ficam mais resistentes. Já o número de folhas (dupla, tripla) não interfere tanto nesse aspecto.
Quem define o que é um papel adequado?
No Brasil, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) é a responsável pela padronização de produtos. Contudo, as normas para papel higiênico são focadas em desempenho físico, como resistência ou alvura, e não em critérios de desagregação.
Ou seja, não existe obrigação legal para que as embalagens informem se o papel pode ser jogado no vaso. E mesmo existindo uma norma internacional (ISO 12625-17:2021) que define como fazer o teste de desagregação, ela não estabelece o que seria um resultado “aceitável”.
Como outros países lidam com isso?
Diferente do Brasil, países como Espanha e Bélgica criaram regulamentações próprias que classificam oficialmente quais papéis são aptos para serem descartados no vaso, com base em testes objetivos. Essas legislações utilizam termos como “hidrossolúvel” ou “flushable”, o que facilita a identificação do produto pelo consumidor.
Aqui, como não há padrão nacional, o consumidor fica sem referência clara. Além disso, poucas empresas brasileiras submetem seus papéis a testes de desagregação, já que isso não é exigido para venda e só costuma ser feito quando há interesse em exportação.
Biodegradável pode ir no vaso?
Nem sempre. Embora o papel higiênico biodegradável seja feito de celulose e se decomponha com o tempo, biodegradação não é o mesmo que desagregação rápida. Um papel pode levar meses para se decompor na natureza, o que não é suficiente para evitar entupimentos nos sistemas de esgoto.
Segundo especialistas, um papel considerado ideal para o vaso sanitário deve se dissolver em até 10 minutos em água, conforme os critérios da ISO. E esse dado, geralmente, não aparece nas embalagens.
Por que não encontramos papéis “flushable” no Brasil?
Além da falta de normas, existe um obstáculo técnico: é mais difícil e mais caro fabricar papéis desagregáveis que mantenham o equilíbrio entre resistência, maciez e dissolução rápida.
Para isso, seria necessário investir em maquinário mais sofisticado e em novos processos industriais. Mas, como não há demanda regulatória, as empresas não se sentem incentivadas a fazer essas mudanças. Segundo a técnica Patrícia Yasumura, do IPT, o senso comum é de que “o esgoto brasileiro não comporta” o descarte de papel, o que desestimula avanços.
O que diz a indústria?
A ABIHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos) afirma que o problema não está apenas no papel, mas também na infraestrutura.
Segundo a entidade, o sistema de esgoto brasileiro é projetado principalmente para líquidos, e materiais sólidos — como o próprio papel higiênico — acabam sendo um desafio. No entanto, a associação também afirma que o papel não é o principal vilão dos entupimentos, apontando o descarte inadequado de lenços umedecidos, absorventes e até plásticos como causas mais frequentes.
Falta transparência e escolha
Enquanto não houver uma regulamentação clara, o consumidor brasileiro seguirá no escuro ao escolher o papel higiênico. E, com isso, o hábito de descartar no lixo deve continuar sendo a realidade da maioria dos lares do país.
[ Fonte: G1.Globo ]