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Ciência

Por que ainda é tão difícil jogar papel higiênico no vaso no Brasil?

Você já se perguntou por que muitos banheiros brasileiros têm lixeiras ao lado do vaso? A resposta envolve a composição do papel higiênico, a falta de regulamentação específica e até o custo de produção. Entenda o que está por trás dessa prática e por que ela persiste.
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Tempo de leitura: 3 minutos

No Brasil, a famosa recomendação de não jogar papel higiênico no vaso sanitário segue sendo motivo de debate. Enquanto em outros países isso é prática comum, por aqui, a mistura entre limitações de infraestrutura e ausência de padrões técnicos claros faz com que o hábito de descartar o papel no lixo continue. Mas o problema vai além do encanamento: ele começa ainda na composição do papel e nas normas que regem sua fabricação.

O que faz um papel se desintegrar na água?

Enquanto não houver uma regulamentação clara, o consumidor brasileiro seguirá no escuro ao escolher o papel higiênico.
© Elly Johnson – Unsplash

Para que um papel higiênico possa ser descartado diretamente no vaso, ele precisa ter capacidade de desagregação, ou seja, se desfazer facilmente em contato com a água. Isso depende diretamente do processo industrial e da quantidade de aditivos usados.

Segundo a professora Lúcia Coelho, da UFABC, papéis que recebem substâncias para ficar mais macios — especialmente os chamados “extra suaves” — tendem a demorar mais para se desintegrar, justamente porque as fibras ficam mais resistentes. Já o número de folhas (dupla, tripla) não interfere tanto nesse aspecto.

Quem define o que é um papel adequado?

No Brasil, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) é a responsável pela padronização de produtos. Contudo, as normas para papel higiênico são focadas em desempenho físico, como resistência ou alvura, e não em critérios de desagregação.

Ou seja, não existe obrigação legal para que as embalagens informem se o papel pode ser jogado no vaso. E mesmo existindo uma norma internacional (ISO 12625-17:2021) que define como fazer o teste de desagregação, ela não estabelece o que seria um resultado “aceitável”.

Como outros países lidam com isso?

Diferente do Brasil, países como Espanha e Bélgica criaram regulamentações próprias que classificam oficialmente quais papéis são aptos para serem descartados no vaso, com base em testes objetivos. Essas legislações utilizam termos como “hidrossolúvel” ou “flushable”, o que facilita a identificação do produto pelo consumidor.

Aqui, como não há padrão nacional, o consumidor fica sem referência clara. Além disso, poucas empresas brasileiras submetem seus papéis a testes de desagregação, já que isso não é exigido para venda e só costuma ser feito quando há interesse em exportação.

Biodegradável pode ir no vaso?

Nem sempre. Embora o papel higiênico biodegradável seja feito de celulose e se decomponha com o tempo, biodegradação não é o mesmo que desagregação rápida. Um papel pode levar meses para se decompor na natureza, o que não é suficiente para evitar entupimentos nos sistemas de esgoto.

Segundo especialistas, um papel considerado ideal para o vaso sanitário deve se dissolver em até 10 minutos em água, conforme os critérios da ISO. E esse dado, geralmente, não aparece nas embalagens.

Por que não encontramos papéis “flushable” no Brasil?

Além da falta de normas, existe um obstáculo técnico: é mais difícil e mais caro fabricar papéis desagregáveis que mantenham o equilíbrio entre resistência, maciez e dissolução rápida.

Para isso, seria necessário investir em maquinário mais sofisticado e em novos processos industriais. Mas, como não há demanda regulatória, as empresas não se sentem incentivadas a fazer essas mudanças. Segundo a técnica Patrícia Yasumura, do IPT, o senso comum é de que “o esgoto brasileiro não comporta” o descarte de papel, o que desestimula avanços.

O que diz a indústria?

A ABIHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos) afirma que o problema não está apenas no papel, mas também na infraestrutura.

Segundo a entidade, o sistema de esgoto brasileiro é projetado principalmente para líquidos, e materiais sólidos — como o próprio papel higiênico — acabam sendo um desafio. No entanto, a associação também afirma que o papel não é o principal vilão dos entupimentos, apontando o descarte inadequado de lenços umedecidos, absorventes e até plásticos como causas mais frequentes.

Falta transparência e escolha

Enquanto não houver uma regulamentação clara, o consumidor brasileiro seguirá no escuro ao escolher o papel higiênico. E, com isso, o hábito de descartar no lixo deve continuar sendo a realidade da maioria dos lares do país.

 

[ Fonte: G1.Globo ]

 

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