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Ciência

Por que empresas e governos estão levando a infraestrutura crítica para o subsolo

Cabos, servidores, energia e outras estruturas essenciais estão encontrando um novo destino: lugares onde rocha, profundidade e novas máquinas podem oferecer uma proteção inesperada.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante muito tempo, construir infraestrutura no subsolo era uma decisão quase sempre associada ao alto custo e à complexidade das obras. Agora, essa lógica começa a mudar. Guerras, ataques, eventos extremos e a crescente dependência de sistemas digitais estão fazendo governos e empresas reconsiderarem onde colocar aquilo que não pode simplesmente parar de funcionar. E uma tecnologia experimental pode tornar essa transformação muito mais rápida.

O que está levando a infraestrutura para debaixo da terra

A ideia de esconder estruturas importantes sob toneladas de rocha não é exatamente nova. O que está mudando é a quantidade de coisas que podem passar a depender dela.

Redes elétricas, cabos de fibra óptica, centros de dados, sistemas de comunicação e outras instalações estratégicas estão sendo analisados sob uma nova perspectiva. Em vez de ficarem expostos na superfície, esses equipamentos podem ganhar uma camada natural de proteção contra ataques, acidentes e determinados eventos extremos.

A guerra entre Rússia e Ucrânia tornou essa preocupação ainda mais evidente. Drones e mísseis demonstraram como instalações localizadas na superfície podem se transformar rapidamente em alvos vulneráveis. Países próximos da Rússia, em particular, passaram a demonstrar maior interesse por estruturas subterrâneas capazes de continuar funcionando mesmo em cenários de conflito.

Mas a questão não envolve apenas segurança.

Centros de dados, por exemplo, consomem enormes quantidades de energia para manter seus servidores refrigerados. No subsolo, a temperatura da rocha tende a ser mais estável, o que pode ajudar a reduzir parte da energia necessária para controlar o ambiente.

Foi nesse contexto que projetos como o Trentino DataMine, construído em cavernas cerca de 100 metros abaixo da superfície nos Dolomitas italianos, ganharam atenção.

A pergunta agora é outra: e se construir esses túneis ficar mais rápido e barato?

Uma máquina quer perfurar rocha usando plasma extremamente quente

É aqui que entra uma tecnologia desenvolvida pela empresa americana EarthGrid. A companhia trabalha em um sistema de perfuração que utiliza tochas de plasma para atravessar rochas extremamente resistentes.

Em um teste realizado em uma pedreira na Califórnia, a máquina conseguiu avançar aproximadamente três metros em granito utilizando jatos de plasma que chegam a cerca de 27 mil °C.

O número impressiona porque essa temperatura é muito superior à da superfície do Sol.

Segundo a empresa, o processo cria um poderoso vórtice dentro do túnel, ajudando a remover o material produzido durante a perfuração. Parte desses resíduos pode adquirir uma consistência semelhante à lava durante o processo.

A proposta não é apenas construir túneis mais rapidamente. A EarthGrid imagina uma rede de possíveis aplicações: conduítes para eletricidade, fibra óptica, água e gás, além de sistemas subterrâneos para movimentação de mercadorias.

Se a tecnologia conseguir alcançar escala comercial, uma das principais barreiras históricas à expansão da infraestrutura subterrânea — o custo e a velocidade das escavações — poderia começar a diminuir.

Ainda assim, existe uma diferença importante entre demonstrar uma tecnologia em uma pedreira e construir centenas de quilômetros de túneis destinados a infraestrutura crítica.

Até os cabos que atravessam os oceanos estão seguindo essa lógica

A estratégia de proteção também está chegando ao fundo do mar.

Grande parte do tráfego global de internet depende de cabos submarinos. Esses sistemas podem ser danificados por âncoras, atividades pesqueiras e outros acidentes. Uma maneira de reduzir esse risco é enterrá-los sob o leito oceânico.

Em algumas regiões, os cabos podem ficar até três metros abaixo do fundo do mar. Dados citados por especialistas da TeleGeography indicam que o aumento desse tipo de proteção coincidiu com uma redução das falhas por quilômetro de cabo instalado.

Mas enterrar infraestrutura não transforma uma obra complexa em algo simples.

Túneis podem enfrentar infiltrações, inundações e gases presos no subsolo. Os custos também podem superar muito os de alternativas convencionais. Mesmo com sistemas de orientação que utilizam lasers e giroscópios, as tuneladoras continuam avançando em velocidades que podem ser medidas em milímetros por minuto.

O projeto London Power Tunnels mostra a dimensão desse desafio. Para instalar grandes cabos elétricos sob Londres, foram construídos cerca de 29 quilômetros de túneis, em uma obra que custou aproximadamente US$ 1,36 bilhão.

Por isso, o futuro provavelmente não será uma cidade completamente enterrada.

A questão será decidir o que merece ficar protegido

A tendência deve ser mais seletiva. Nem toda estrada, cabo ou instalação precisa ficar protegida dezenas de metros abaixo da superfície.

O cálculo começa a fazer sentido principalmente quando a interrupção de determinada estrutura teria consequências enormes e seria muito difícil substituí-la rapidamente.

Centros de dados estratégicos, fábricas de semicondutores, grandes redes elétricas e importantes pontos de telecomunicações aparecem entre os candidatos mais óbvios.

É uma mudança de lógica interessante. Durante séculos, seres humanos enterraram objetos para protegê-los de invasores, acidentes ou do próprio tempo. Agora, podemos estar entrando em uma fase em que o que será escondido sob a terra não são tesouros, mas os sistemas invisíveis que mantêm a sociedade moderna funcionando.

E quanto mais vulnerável se torna a infraestrutura de superfície, mais valioso pode ficar aquilo que existe logo abaixo dos nossos pés.

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