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Por que o Uruguai eliminou o feriado de Natal, mas mantém viva a celebração

Desde 1919, o Uruguai tomou uma decisão peculiar e única na América Latina: substituir feriados religiosos, como o Natal, por celebrações de caráter laico. O Natal se tornou o Dia da Família; o Dia de Reis, o Dia das Crianças; a Semana Santa, a Semana de Turismo; e o Dia da Virgem, o Dia das Praias.
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Tempo de leitura: 2 minutos

Apesar da exclusão do Natal como feriado oficial, o Uruguai celebra a data com uma identidade única e secular.

A separação entre Igreja e Estado

O processo de secularização uruguaio começou ainda no século XIX, moldando a identidade do país.

O marco inicial foi em 1861, quando os cemitérios, antes administrados pela Igreja Católica, passaram para o controle do Estado. A partir de então, o Uruguai deu passos decisivos em direção à separação entre Igreja e Estado. Em 1907, foi aprovada a lei do divórcio e eliminadas referências religiosas em juramentos parlamentares. Crucifixos foram removidos de hospitais públicos, e, em 1909, a religião deixou de ser ensinada nas escolas.

O presidente José Batlle y Ordóñez, governante visionário, liderou reformas entre 1903 e 1915 que consolidaram o caráter laico do país. Para ele, o Estado deveria garantir liberdade de culto e direitos iguais, sem privilégios a instituições religiosas. A Constituição de 1917 formalizou essa separação, garantindo liberdade de crença e promovendo uma visão progressista na América Latina.

A mudança nos feriados religiosos

A transformação dos feriados foi parte de um projeto mais amplo de modernização.

A decisão de renomear o Natal como Dia da Família reflete o espírito secular do Uruguai. A intenção era criar datas inclusivas que representassem valores universais, sem ligação direta com a religião. Mesmo assim, a essência das celebrações permaneceu viva, com tradições natalinas como árvores decoradas e panetones sendo amplamente mantidas.

O perfil religioso dos uruguaios

O Uruguai é o país mais secular da América Latina, com uma grande proporção de pessoas sem religião.

De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center de 2014, 37% da população uruguaia não possui filiação religiosa, incluindo ateus (10%) e agnósticos (3%). Essa porcentagem é significativamente maior do que em países vizinhos como Argentina (11%) e Brasil (8%). Entre os que se identificam com alguma religião, 42% são católicos, 15% protestantes e 6% pertencem a outras crenças.

Natal no Uruguai: tradição sem formalidade

Embora o Natal não seja feriado oficial, as tradições seguem firmes nas ruas e nas casas.

O espírito natalino persiste no Uruguai, com decorações coloridas, luzes e árvores de Natal espalhadas pelas cidades. Contudo, há uma ausência de presépios em espaços públicos, reforçando o caráter laico do país. A celebração é mais focada no convívio familiar, alinhada com o conceito de Dia da Família, e menos associada a práticas religiosas tradicionais.

A história do Uruguai revela como um país pode preservar suas tradições enquanto redefine sua identidade cultural e política. A transformação do Natal e de outros feriados exemplifica a convivência entre secularismo e celebração, em um equilíbrio único na região.

 

Fonte: El Litoral

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