Durante anos, a discussão sobre mudanças climáticas se concentrou em países, hábitos individuais e metas globais. Mas um novo relatório mostra que o destino do clima da Terra está, em grande medida, nas mãos de um número surpreendentemente pequeno de empresas. Menos de quatro dezenas de companhias foram responsáveis por mais da metade das emissões globais de dióxido de carbono em 2024, segundo dados recentes.
O levantamento, divulgado pela base Carbon Majors, reforça uma tendência preocupante: enquanto as emissões totais seguem elevadas, a responsabilidade por elas se concentra cada vez mais em um grupo restrito de grandes produtores de combustíveis fósseis e cimento.
Apenas 32 empresas concentram mais de 50% das emissões
De acordo com o relatório, apenas 32 empresas responderam por mais da metade das emissões globais de CO₂ provenientes da produção de petróleo, gás, carvão e cimento em 2024. No total, o estudo analisou dados históricos e recentes de 178 das maiores companhias desses setores no mundo.
O número chama ainda mais atenção quando comparado ao ano anterior. Em 2023, eram 36 empresas responsáveis por esse mesmo patamar de emissões. A redução não significa melhora ambiental, mas sim o contrário: as emissões passaram a se concentrar ainda mais em menos atores.
No ano passado, 166 empresas analisadas foram associadas a cerca de 34,7 gigatoneladas de gases de efeito estufa, um aumento de 0,8% em relação a 2023. Segundo Emmett Connaire, analista sênior do think tank InfluenceMap e autor principal do relatório, “a cada ano, as emissões globais ficam mais concentradas em um grupo cada vez menor de grandes produtores, enquanto a produção total continua crescendo”.
Empresas estatais dominam o ranking global

Outro dado central do estudo é o peso das empresas estatais. As dez maiores emissoras de CO₂ em 2024 são todas companhias total ou majoritariamente controladas por Estados. Juntas, elas foram responsáveis por 27,6% das emissões globais associadas a combustíveis fósseis naquele ano.
No total, as 70 empresas estatais ativas avaliadas pelo relatório responderam por 54,4% das emissões globais, enquanto 93 empresas de capital privado ficaram com 23,7%. Entre as estatais, a China aparece com destaque: cinco das dez maiores emissoras pertencem ao país. Rússia, Arábia Saudita, Índia e Irã completam a lista.
A empresa mais poluente do mundo em 2024 foi a Saudi Aramco, estatal da Arábia Saudita, responsável sozinha por 4,3% das emissões globais de CO₂ provenientes de combustíveis fósseis e cimento.
Diferenças entre estatais e empresas privadas
O relatório também aponta comportamentos distintos entre empresas estatais e privadas. Entre 2023 e 2024, a maioria das estatais aumentou suas emissões: 38 ampliaram sua pegada de carbono, enquanto 29 reduziram.
Já entre as empresas privadas, o movimento foi inverso. Das companhias controladas por investidores, 54 conseguiram reduzir emissões, contra 39 que registraram aumento. Ainda assim, gigantes do setor privado continuam entre os maiores poluidores do planeta, incluindo nomes como ExxonMobil, Chevron, Shell, BP e ConocoPhillips.
Quando os dados viram ferramenta de pressão
Apesar do cenário preocupante, os autores do estudo destacam que a transparência crescente pode virar um instrumento poderoso de responsabilização. Dados históricos de emissões corporativas estão sendo cada vez mais usados por governos, pesquisadores e comunidades afetadas pela crise climática.
Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de uma dúzia de estados já utilizaram informações da base Carbon Majors para embasar projetos de lei inspirados no conceito de “superfund climático”. Essas propostas buscam obrigar grandes empresas de combustíveis fósseis a financiar medidas de proteção contra impactos como ondas de calor extremas, enchentes e elevação do nível do mar.
Além disso, estudos de atribuição climática vêm usando esses dados para ligar eventos extremos a emissores específicos. Uma pesquisa publicada na revista Nature, em 2025, concluiu que as emissões associadas aos chamados carbon majors contribuíram para cerca de metade do aumento na intensidade das ondas de calor desde o período entre 1850 e 1900.
Um futuro concentrado nas decisões de poucos
À medida que a temperatura média global continua subindo, a pressão sobre esses grandes emissores tende a aumentar. O relatório deixa claro que um número reduzido de empresas exerce um poder desproporcional sobre o futuro climático do planeta.
Entender quem são esses atores e quanto eles emitem não resolve o problema por si só. Mas transforma a crise climática de um desafio abstrato em uma questão concreta de responsabilidade. Em um mundo cada vez mais afetado por eventos extremos, saber quem está por trás da maior parte das emissões pode ser o primeiro passo para devolver poder às sociedades — e cobrar mudanças reais de quem mais contribui para o aquecimento global.