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Ciência

Emergências médicas mudam para sempre: um novo material pode estancar hemorragias em segundos

Cientistas desenvolveram um método capaz de interromper sangramentos graves quase instantaneamente. A técnica usa o próprio sangue de forma inovadora e pode transformar tratamentos de urgência.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Em situações críticas, poucos segundos podem definir o destino de um paciente. Hemorragias internas, especialmente em órgãos como fígado e baço, continuam sendo uma das principais causas de morte em emergências médicas. Agora, uma nova abordagem científica propõe algo que até pouco tempo parecia impossível: interromper esses sangramentos quase imediatamente. E o mais surpreendente é como isso acontece — usando o próprio sangue de uma forma completamente diferente.

O problema que a medicina ainda não conseguiu resolver totalmente

Emergências médicas mudam para sempre: um novo material pode estancar hemorragias em segundos
© Pexels

Apesar dos avanços na medicina, controlar hemorragias internas graves ainda é um desafio. Métodos tradicionais, como pressão manual ou agentes hemostáticos, muitas vezes não funcionam em órgãos profundos ou altamente vascularizados.

O principal obstáculo está na própria biologia do sangue. Embora os glóbulos vermelhos representem cerca de 45% do volume sanguíneo, eles não contribuem para a resistência dos coágulos naturais.

A estrutura do coágulo depende principalmente da fibrina, uma proteína que forma uma rede para reter células — mas que representa menos de 1% do volume total. Isso torna o coágulo frágil, sujeito a rupturas antes que o tecido consiga se recuperar.

Além disso, o processo natural de coagulação pode levar minutos. Em casos graves, esse tempo simplesmente não existe.

A ideia que mudou tudo: transformar células em estrutura

Foi a partir desse problema que pesquisadores da Universidade McGill desenvolveram uma solução radicalmente diferente.

Em vez de depender apenas da fibrina, a proposta foi transformar os próprios glóbulos vermelhos em elementos estruturais do coágulo. Ou seja, fazer com que as células deixem de ser apenas “passageiras” e passem a sustentar fisicamente o bloqueio do sangramento.

Para isso, a equipe liderada por Shuaibing Jiang e Jianyu Li criou um método que conecta essas células entre si, formando uma rede sólida e resistente.

Como funciona a “coagulação por clique”

A técnica utiliza um processo conhecido como química bioortogonal — reações que acontecem dentro do corpo sem interferir em processos biológicos normais.

Os cientistas modificaram a superfície dos glóbulos vermelhos com um composto que funciona como um “gancho molecular”. Em paralelo, prepararam outra substância que atua como o “fecho” desse sistema.

Quando os dois entram em contato, ocorre uma ligação quase instantânea — em menos de cinco segundos.

O resultado é um material chamado “citogel”: uma estrutura em que os próprios glóbulos vermelhos formam uma rede coesa, capaz de suportar pressão e interromper o sangramento de forma muito mais eficiente.

Resultados que chamaram atenção

Os testes, publicados na Nature, mostraram resultados expressivos.

O novo material apresentou:

  • Uma resistência à fratura até 13 vezes maior que coágulos naturais
  • Uma capacidade de adesão quatro vezes superior
  • Formação quase imediata após aplicação

Em experimentos com animais, o impacto foi ainda mais evidente. Em lesões profundas no fígado, a perda de sangue caiu drasticamente, e o tempo necessário para conter a hemorragia foi reduzido de vários minutos para apenas cinco segundos.

Além disso, os tecidos tratados apresentaram recuperação completa após algumas semanas, com menor formação de cicatrizes internas indesejadas.

Por que o material é resistente

Um dos aspectos mais interessantes da descoberta está no próprio mecanismo de resistência.

Ao serem submetidos a pressão, os glóbulos vermelhos dentro do citogel podem se romper. Mas, em vez de enfraquecer a estrutura, esse processo ajuda a dissipar energia e impede que o material se quebre de forma abrupta.

Ou seja, a própria ruptura celular funciona como um sistema de proteção, aumentando a durabilidade do coágulo artificial.

Segurança e limitações atuais

Os testes iniciais indicam que o material é bem tolerado pelo organismo. Ele não ativa reações imunes significativas, não causa danos sistêmicos e é completamente degradado em algumas semanas.

Outro ponto relevante é a flexibilidade de uso: o citogel pode ser produzido a partir do próprio sangue do paciente ou de doadores compatíveis, com tempos de preparação relativamente curtos.

No entanto, a tecnologia ainda está em fase experimental. Os testes foram realizados apenas em animais, e ainda são necessários estudos clínicos em humanos para validar sua eficácia e segurança.

Além disso, em casos de sangramentos em grandes artérias, pode ser necessário combinar o material com suportes adicionais para garantir estabilidade.

Um avanço que pode redefinir emergências médicas

Apesar das limitações, a descoberta representa um avanço significativo.

Se confirmada em humanos, a técnica pode transformar o atendimento a traumas graves, cirurgias de emergência e até situações de guerra ou resgate, onde o tempo é um fator crítico.

Mais do que um novo material, o que está em jogo é uma mudança de abordagem: usar o próprio corpo como base para soluções mais rápidas, eficientes e adaptáveis.

E, nesse cenário, cinco segundos podem ser a diferença entre perder e salvar uma vida.

[Fonte: Infobae]

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