Por muito tempo, o TDAH foi visto através de um conjunto relativamente limitado de sintomas: distração, impulsividade e hiperatividade. Mas a realidade, especialmente para muitas famílias e professores, sempre pareceu mais complexa. Agora, uma nova pesquisa sugere que essa percepção pode estar correta. Ao olhar diretamente para o cérebro, cientistas encontraram algo que pode mudar a forma como entendemos o transtorno — e revelar por que alguns casos são tão mais difíceis de lidar.
Um padrão que vai além dos sintomas tradicionais

A imagem clássica do TDAH costuma girar em torno de comportamentos já conhecidos: dificuldade de concentração, inquietação constante e impulsividade. No entanto, há um grupo de crianças que foge desse padrão.
São casos em que as emoções parecem sair do controle. Explosões repentinas, crises intensas, choro, gritos e reações desproporcionais fazem parte do dia a dia — algo que muitos profissionais já observavam, mas tinham dificuldade em classificar.
Esse tipo de comportamento levanta dúvidas importantes: trata-se apenas de uma forma mais intensa do transtorno ou de algo diferente?
O que os escaneamentos cerebrais revelaram
Um estudo recente publicado na JAMA Psychiatry analisou mais de mil escaneamentos cerebrais de crianças e adolescentes e trouxe pistas relevantes.
A partir das imagens, os pesquisadores identificaram três subtipos distintos de TDAH:
- O tipo predominantemente desatento
- O tipo predominantemente hiperativo/impulsivo
- E uma terceira forma, mais complexa, associada à desregulação emocional
As duas primeiras categorias já fazem parte da classificação atual. A terceira, porém, representa algo novo — e potencialmente mais desafiador.
Um subtipo mais grave e diferente, não apenas mais intenso
O dado mais surpreendente está na forma como esse terceiro grupo se apresenta no cérebro. Enquanto os outros subtipos mostraram alterações em cerca de 26 áreas, esse grupo apresentou mudanças em 45 regiões diferentes.
Segundo o pesquisador Nanfang Pan, isso indica que não se trata apenas de um TDAH “mais forte”, mas de um padrão distinto.
As alterações mais relevantes foram observadas em áreas como o córtex pré-frontal medial e o pálido, regiões ligadas ao controle emocional e ao comportamento.
Essas diferenças podem ajudar a explicar por que alguns pacientes apresentam mudanças bruscas de humor e reações intensas que fogem ao esperado.
Um problema antigo que nunca foi totalmente definido
Apesar de comum, a desregulação emocional sempre foi difícil de encaixar nos critérios formais de diagnóstico. O manual utilizado por profissionais da área não inclui esse aspecto como parte central do transtorno.
Isso cria um vazio na prática clínica. Muitos pacientes acabam recebendo diagnósticos adicionais — como ansiedade, depressão ou outros transtornos — sem que exista uma categoria clara que explique o conjunto completo de sintomas.
Especialistas como Paul Rosen destacam que esses casos são frequentes, mas ainda pouco definidos. Alguns apresentam reações intensas e passageiras, enquanto outros vivem em um estado constante de instabilidade emocional.
Por que isso pode mudar os tratamentos
Identificar esse subtipo pode ter impacto direto na forma como o TDAH é tratado. Estratégias tradicionais, como recompensas por bom comportamento, nem sempre funcionam nesses casos.
Além disso, há indícios de que alguns pacientes desse grupo respondem de forma diferente aos medicamentos mais comuns, o que torna o tratamento ainda mais complexo.
Pesquisadores como Melissa DelBello apontam que esse tipo de descoberta pode abrir caminho para abordagens mais personalizadas, adaptadas às características específicas de cada paciente.
Um passo em direção a uma nova forma de entender o TDAH
O estudo faz parte de um movimento maior na ciência: sair de classificações baseadas apenas em sintomas e avançar para uma compreensão biológica dos transtornos.
Esse tipo de abordagem já começou a transformar pesquisas em áreas como o autismo e pode seguir o mesmo caminho no TDAH.
Especialistas envolvidos na construção do DSM-5, como F. Xavier Castellanos, indicam que novas evidências podem levar a mudanças futuras na forma como o transtorno é definido.
Uma descoberta que pode redefinir o futuro do diagnóstico
Embora ainda não seja viável aplicar escaneamentos cerebrais de forma ampla no diagnóstico clínico, os resultados já apontam para uma direção clara.
A ideia de que o TDAH pode incluir um componente emocional central, e não apenas comportamental, ganha cada vez mais força.
Se confirmada, essa mudança pode ajudar milhares de famílias a entender melhor o que enfrentam — e, principalmente, encontrar caminhos mais eficazes para lidar com isso.
[Fonte: La nación]