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Tecnologia

Quando os jogos parecem reais demais: o dilema que GTA 6 reacendeu

Com gráficos quase fotográficos e violência cada vez mais imersiva, grandes lançamentos levantam dúvidas sobre até onde o realismo pode ir. Ao mesmo tempo, jogos simples e “aconchegantes” conquistam milhões de fãs.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Os videogames nunca estiveram tão próximos da realidade. Luz, sombras, expressões faciais e até o movimento da água são reproduzidos com um nível de detalhe impressionante. Mas essa evolução levanta uma pergunta incômoda: será que, ao se tornarem realistas demais, os jogos estão perdendo parte do seu poder de escapismo? Enquanto superproduções apostam em experiências quase cinematográficas, um movimento oposto cresce silenciosamente, valorizando estilos mais simples, artísticos e menos violentos.

A corrida pelo realismo extremo

Quando os jogos parecem reais demais: o dilema que GTA 6 reacendeu
© https://x.com/MrkelsGame/

Em 2020, o CEO da Take-Two Interactive, Strauss Zelnick, afirmou que em cerca de dez anos os videogames poderiam se parecer com produções em “live action”. A previsão parecia ousada na época, mas a indústria chegou a esse nível muito antes do esperado.

Nos últimos anos, títulos como Death Stranding 2 e Alan Wake 2 mostraram cenários tão detalhados que beiram o fotorrealismo. Folhas de grama, reflexos de luz e paisagens inteiras parecem ter sido capturados por uma câmera, não criados por computadores.

Esse avanço técnico culmina em um dos lançamentos mais aguardados da década: Grand Theft Auto 6. Com orçamento superior a US$ 1 bilhão, o jogo promete apresentar uma versão hiper-realista de um estado fictício inspirado na Flórida, com cidades, praias, animais e ambientes urbanos cheios de vida.

A Rockstar, estúdio responsável pelo jogo, chegou a contratar uma equipe exclusiva de engenheiros apenas para aperfeiçoar a física da água, buscando reproduzir ondas e reflexos com precisão quase científica. Nos trailers, fãs já identificaram detalhes como guaxinins revirando lixo e tubarões nadando no oceano.

O objetivo é claro: borrar ao máximo a linha entre o mundo real e o virtual.

Violência imersiva: entretenimento ou desconforto?

Com gráficos cada vez mais realistas, a violência também ganha um novo peso. Explosões, perseguições, tiros e crimes, que antes tinham um ar quase cartunesco, agora se aproximam de cenas que lembram noticiários ou filmes de guerra.

Esse nível de realismo levanta preocupações antigas, mas renovadas: será que jogos violentos influenciam comportamentos agressivos? Embora não existam evidências conclusivas de uma relação direta, o debate se intensifica à medida que as experiências se tornam mais imersivas.

Para alguns desenvolvedores, o problema não é a violência em si, mas o contexto em que ela é apresentada. Quando o jogo se aproxima demais da realidade, certas cenas podem deixar de ser “fantasia” e passar a causar desconforto emocional.

O desenvolvedor palestino Rasheed Abudeideh, por exemplo, acredita que o mundo já vive cercado por notícias de guerra, terrorismo e tragédias. Nesse cenário, criar jogos com violência ultrarrealista pode parecer mais perturbador do que divertido. Para ele, os games deveriam priorizar experiências que levem os jogadores a um “estado de fluxo” — uma imersão prazerosa que não depende de gráficos sofisticados.

Realismo não é só aparência

Apesar do salto visual, especialistas lembram que videogames ainda são experiências claramente artificiais. A professora Tanya Krzywinska, da Universidade Brunel, destaca que, mesmo com gráficos impressionantes, os jogos mantêm elementos irreais: física exagerada, movimentos caricatos e narrativas satíricas.

Em GTA 6, por exemplo, carros provavelmente continuarão a se comportar de forma quase cômica em colisões, e a história deve exagerar aspectos da cultura americana, como o consumismo e a obsessão por armas.

Segundo Krzywinska, a experiência de um jogo vai muito além dos gráficos. Envolve controles, som, animações, design de níveis e a forma como o jogador interage com o ambiente. O realismo visual é apenas uma peça desse quebra-cabeça.

Já a professora Tracy Fullerton, da Universidade do Sul da Califórnia, reconhece o fascínio dos gráficos ultrarrealistas, especialmente quando personagens se parecem com astros do esporte ou do cinema. Mas ela também alerta para o ciclo de expectativas cada vez mais altas — e mais caras — que isso cria na indústria.

O cansaço dos grandes orçamentos

Produzir jogos hiper-realistas exige equipes enormes, longos períodos de desenvolvimento e investimentos gigantescos. GTA 6, por exemplo, chega 14 anos depois de GTA 5.

Ao mesmo tempo, grandes estúdios enfrentam demissões em massa e dificuldades para concluir projetos dentro do prazo. O realismo extremo se tornou um caminho arriscado, tanto financeiramente quanto criativamente.

Para o desenvolvedor Francis Coulombe, investir em gráficos ultrarrealistas é como “entrar em um lago cheio de peixes grandes”. A concorrência é brutal, os custos são altíssimos e qualquer erro pode comprometer anos de trabalho.

Essa pressão tem levado muitos criadores a buscar alternativas mais sustentáveis — e criativas.

A força dos estilos simples e autorais

Enquanto superproduções disputam quem chega mais perto da realidade, jogos independentes seguem outro caminho. Em vez de fidelidade visual, apostam em identidade artística, emoções e atmosferas únicas.

O terror Eclipsium, por exemplo, utiliza filtros que lembram fitas VHS, criando um clima surreal e perturbador sem precisar de gráficos avançados. Seu criador, Emil Forsén, acredita que o objetivo da mídia é transmitir sentimentos, não copiar a realidade com perfeição.

Outro exemplo é Look Outside, um jogo de terror com estética inspirada em filmes de David Cronenberg e gráficos que lembram o antigo Mega Drive. Para Coulombe, o estilo mais absurdo e colorido ajuda a criar uma sensação de pesadelo que seria difícil de alcançar com visual realista.

Além do terror, os chamados “jogos aconchegantes” também ganharam espaço. Tiny Bookshop, por exemplo, coloca o jogador no comando de uma pequena livraria em uma cidade litorânea ensolarada, com personagens excêntricos e visual desenhado à mão.

Segundo o diretor criativo David Zapfe-Wildemann, o que atrai os jogadores hoje não são apenas gráficos, mas a promessa de uma experiência envolvente, acolhedora e inspiradora.

Nostalgia, conforto e o sucesso do retrô

O console mais vendido da década de 2020 é o Nintendo Switch, que aposta em gráficos mais simples e estilos artísticos que lembram contos de fadas. Seus jogos estão mais próximos da era do PlayStation 3 do que do poder gráfico do PS5.

Isso mostra que o realismo não é prioridade para todos. Muitos jogadores, especialmente da Geração Z, buscam experiências nostálgicas, inspiradas nos tempos do PlayStation 1 e do Nintendo 64.

Para Coulombe, o excesso de realismo pode até prejudicar o design de níveis, tornando os ambientes confusos e sobrecarregados. Já os jogos mais simples costumam oferecer experiências mais intuitivas e naturais.

O futuro entre o real e o imaginário

GTA 6 tem tudo para impressionar com seus gráficos, sua escala e sua ambição. Mas seu impacto emocional pode ser diferente dos jogos anteriores. A violência, agora quase fotográfica, pode fazer alguns jogadores repensarem suas escolhas dentro do jogo.

Há quem espere que a Rockstar adote um realismo mais seletivo, equilibrando fidelidade visual com liberdade criativa. Afinal, se os games se tornarem realistas demais, talvez percam parte do seu papel como espaços seguros para experimentar o caos de forma lúdica.

No fim das contas, o futuro dos videogames parece caminhar para a diversidade de experiências. Haverá espaço tanto para superproduções hiper-realistas quanto para rabiscos estilizados, mundos acolhedores e aventuras nostálgicas.

Como resume Tracy Fullerton, cada tipo de jogo deve ser valorizado por seus próprios padrões estéticos — porque a magia dos videogames está justamente na variedade de mundos que eles podem oferecer.

[Fonte: Correio Braziliense]

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