A disputa eleitoral no Brasil pode repetir velhos padrões de polarização, mas há um detalhe que ganha cada vez mais peso nos bastidores: a diferença de comportamento entre homens e mulheres. Uma nova pesquisa revela que essa divisão não só continua presente como está se aprofundando — e, mais do que isso, pode ser decisiva para o resultado das próximas eleições.
Um país dividido não só por ideologia, mas por gênero

Os dados mais recentes da pesquisa Genial/Quaest indicam que a disputa presidencial tende a seguir o mesmo cenário polarizado dos últimos anos. No entanto, há um recorte que chama atenção: a diferença clara entre as preferências de homens e mulheres.
Na simulação de segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, o resultado geral aponta um empate técnico. Ambos aparecem com 41% das intenções de voto.
Mas esse equilíbrio desaparece quando se observa a divisão por gênero.
Entre as mulheres, Lula lidera com 44%, enquanto Flávio aparece com 36%. Já entre os homens, o cenário se inverte: Flávio tem 46%, contra 38% do atual presidente.
Esse padrão não é novo. Ele já havia sido observado em eleições anteriores e, segundo especialistas, tende a se consolidar ainda mais nos próximos anos.
A vantagem entre mulheres está diminuindo
Apesar de manter a liderança entre o eleitorado feminino, Lula enfrenta um sinal de alerta. A diferença que antes era confortável vem diminuindo ao longo dos últimos meses.
Em agosto de 2025, a vantagem do presidente entre mulheres era significativamente maior: 50% contra 28% de Flávio Bolsonaro — uma diferença de 22 pontos percentuais.
Agora, essa distância caiu para apenas oito pontos.
Esse movimento acompanha a queda nos índices de aprovação do governo e preocupa estrategistas políticos, especialmente porque as mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro — cerca de 52% do total.
Além disso, uma parcela relevante desse grupo ainda se mostra indecisa ou declara não apoiar nenhum dos dois candidatos, o que pode ser decisivo em um cenário apertado.
Entre os homens, o cenário virou completamente
Se a situação entre as mulheres preocupa, entre os homens ela se tornou ainda mais desafiadora para Lula.
Meses atrás, o presidente liderava nesse grupo com 45% das intenções de voto, contra 37% de Flávio Bolsonaro. Naquele momento, o discurso em defesa da soberania nacional ajudava a sustentar essa vantagem.
Hoje, o quadro é outro.
Flávio Bolsonaro passou à frente, com 46%, enquanto Lula aparece com 38%. A diferença de oito pontos agora favorece o senador.
Esse tipo de virada reforça a ideia de que o comportamento do eleitorado masculino pode ser mais volátil — e também mais sensível a determinados temas, como segurança pública e posicionamentos mais duros.
O chamado “gap de gênero” pode ser decisivo
Especialistas classificam essa divisão entre homens e mulheres como “gap de gênero”, um fenômeno que vem se intensificando desde as eleições de 2018.
Segundo análises acadêmicas, essa diferença não está ligada apenas à preferência política, mas também às prioridades e experiências distintas de cada grupo na sociedade.
Mulheres tendem a valorizar mais políticas sociais e de proteção, o que historicamente beneficia candidatos associados a essas pautas. Já os homens demonstram maior afinidade com discursos voltados à segurança pública e medidas mais rígidas.
Esse contraste ajuda a explicar por que candidatos ligados a campos ideológicos distintos encontram apoios tão diferentes dependendo do gênero do eleitor.
Para especialistas, o avanço desse fenômeno indica que as eleições futuras não serão definidas apenas por ideologia, mas também por quem conseguir dialogar melhor com essas diferenças.
Uma disputa que pode ser decidida nos detalhes
Com um cenário tão equilibrado, pequenas variações podem ter um impacto enorme no resultado final.
A tendência é que campanhas ajustem suas estratégias para reduzir rejeições e ampliar apoio em segmentos específicos — especialmente entre as mulheres, que representam a maior fatia do eleitorado.
Ao mesmo tempo, cresce a pressão para que candidatos consigam equilibrar discursos e propostas que dialoguem com públicos distintos, sem perder identidade política.
Se há algo que essa pesquisa deixa claro, é que a eleição não será decidida apenas nos grandes palanques, mas também em mudanças silenciosas no comportamento do eleitorado.
E, dessa vez, entender essas diferenças pode ser mais importante do que nunca.
[Fonte: O globo]