Uma discussão no trabalho, uma perda inesperada ou meses de pressão podem ser devastadores para alguém e relativamente administráveis para outra pessoa. Essa diferença não depende apenas de personalidade ou força emocional. Pesquisadores vêm descobrindo que nossa resposta ao estresse envolve uma complexa combinação entre genes, cérebro, experiências anteriores e ambiente. E estudos recentes estão tornando essa relação ainda mais interessante.
Por que o mesmo problema não provoca a mesma reação

O estresse é, antes de tudo, uma resposta de adaptação. Diante de uma ameaça ou situação considerada desafiadora, o organismo mobiliza diferentes sistemas para aumentar as chances de lidar com o problema. Hormônios como o cortisol fazem parte desse mecanismo.
O problema aparece quando essa ativação se torna excessiva, recorrente ou prolongada. Nessas circunstâncias, o estresse crônico pode se relacionar a alterações de humor e a um risco maior de diferentes transtornos mentais. Ainda assim, a exposição a uma situação difícil não permite prever automaticamente o que acontecerá com uma pessoa.
É justamente aí que entra a genética.
Pesquisas com gêmeos já encontraram evidências de que características da resposta do cortisol ao estresse apresentam algum grau de herdabilidade. Em um estudo com adolescentes e adultos jovens, por exemplo, diferentes medidas de reatividade do cortisol apresentaram estimativas de herdabilidade que variaram aproximadamente entre 12% e 45%. Isso não significa que essa porcentagem do estresse de uma pessoa seja determinada pelo DNA, mas que diferenças genéticas ajudam a explicar parte da variação observada entre indivíduos.
Não existe um “gene do estresse”

A ideia de encontrar um único gene capaz de determinar quem será mais ou menos resistente às adversidades perdeu espaço diante de um cenário muito mais complexo.
A resposta ao estresse e a resiliência têm características poligênicas: muitas variantes genéticas podem contribuir, geralmente com efeitos individuais pequenos. Além disso, a influência dessas variantes depende das condições ambientais e das experiências acumuladas ao longo da vida.
Um dos exemplos mais conhecidos envolve o sistema da serotonina. Variantes relacionadas ao transportador desse neurotransmissor já foram associadas, em algumas pesquisas, a diferenças na vulnerabilidade à depressão diante de acontecimentos estressantes. Mas os resultados acumulados ao longo dos anos não permitem transformar essa associação em uma regra universal.
Essa cautela é importante porque a genética da resiliência continua sendo um campo em desenvolvimento. Uma ampla análise publicada na revista Molecular Psychiatry, com dados de mais de 15 mil participantes de seis coortes alemãs, encontrou indícios de participação genética, mas concluiu que a herdabilidade da resiliência parece ser baixa e que amostras internacionais muito maiores ainda serão necessárias.
Uma descoberta recente acrescentou outra peça ao quebra-cabeça
Um trabalho publicado em 2026 trouxe uma pista particularmente interessante. Pesquisadores acompanharam 12.946 pacientes submetidos a cirurgias e avaliaram sintomas depressivos antes do procedimento e durante os 12 meses seguintes.
A análise identificou 2.328 participantes classificados como resilientes segundo os critérios utilizados pelos pesquisadores. Um estudo de associação genômica encontrou então uma variante, chamada rs11766511, próxima ao gene SDK1, como possível sinal genético relacionado à resiliência psicológica.
O resultado, porém, precisa ser interpretado com cuidado. Quando os pesquisadores examinaram a variante em outra coorte, formada por 2.285 pacientes que haviam sofrido traumas graves, encontraram uma tendência na mesma direção, mas a associação no modelo genético adicional não alcançou significância estatística. Os próprios autores afirmam que o achado precisa ser confirmado.
Ou seja: é uma pista científica, não um teste capaz de dizer quem será resiliente.
O ambiente continua ocupando uma parte enorme da equação
Genes podem modificar probabilidades, mas experiências anteriores, relações sociais, adversidades na infância, condições socioeconômicas, estratégias de regulação emocional e apoio disponível também interferem na maneira como alguém enfrenta períodos difíceis.
Essa interação ajuda a explicar por que duas pessoas geneticamente semelhantes podem seguir trajetórias bastante diferentes. Também explica por que predisposição não deve ser confundida com destino.
Há ainda a epigenética, área que estuda alterações capazes de influenciar a atividade dos genes sem modificar a sequência do DNA. Experiências ambientais podem estar associadas a essas marcas, embora estabelecer relações causais em seres humanos seja complicado. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 encontrou resultados mistos entre metilação do DNA e resposta do cortisol ao estresse, classificando a evidência disponível como de baixa certeza.
Até a própria resposta hormonal pode desafiar explicações simples. Um estudo recente com 48 participantes observou que indivíduos classificados previamente como menos resilientes apresentaram resposta de cortisol menor diante de um estressor agudo, e não necessariamente maior. Os autores ressaltam que ainda não está claro se essa diferença hormonal contribui para a resiliência ou é consequência de outros mecanismos.
A conclusão que emerge desse conjunto de pesquisas é menos determinista e, ao mesmo tempo, mais interessante: o DNA participa da história, mas não escreve sozinho o final.