Quando alguém fala sobre os benefícios da leitura, é comum pensar em vocabulário, escrita ou imaginação. Mas uma revisão de pesquisas conduzida por cientistas da Universidade de Cambridge sugere que a história pode ser bem maior. O hábito de ler por prazer aparece associado a mudanças em diferentes capacidades cognitivas e até a melhores resultados em uma disciplina que, à primeira vista, parece não ter muita relação com livros: a matemática.
O efeito pode aparecer onde ninguém esperava
Ler costuma ser apresentado como uma ferramenta para desenvolver habilidades linguísticas. E, de fato, crianças e adolescentes que mantêm o hábito de leitura tendem a apresentar melhores competências nessa área.
Mas a revisão realizada por pesquisadores da Universidade de Cambridge em parceria com a The Queen’s Reading Room encontrou associações que vão além das palavras.
Entre os jovens, a leitura por prazer aparece relacionada a melhor atenção, memória, funções executivas e desempenho acadêmico. Alguns estudos também associam o hábito a comportamentos considerados mais saudáveis, como dormir por mais tempo e passar menos horas diante de telas.
É aí que surge uma das descobertas mais interessantes.
Parte das pesquisas analisadas encontrou uma relação entre ler por prazer e apresentar melhores resultados em matemática. Isso não significa que uma pessoa possa abandonar os exercícios e simplesmente trocar a tabuada por romances.
A possível explicação está nas habilidades que as duas atividades compartilham.
Para resolver um problema matemático, é preciso compreender corretamente o que está sendo pedido, manter informações na memória de trabalho, concentrar-se e acompanhar uma sequência de etapas. A leitura também exige que o cérebro mantenha informações, interprete relações e siga uma linha de raciocínio.
Ou seja, o benefício pode estar menos no conteúdo do livro e mais no tipo de atividade mental que ele exige.

Cinco minutos podem mudar a forma como o cérebro desacelera
Os possíveis efeitos da leitura também não parecem desaparecer quando a pessoa deixa a escola.
A revisão reúne estudos que relacionam o hábito a menores níveis de estresse e maior bem-estar psicológico. Em uma das pesquisas citadas, apenas cinco minutos de leitura de ficção já foram associados a uma redução perceptível do estresse.
O resultado ajuda a explicar por que ler pode funcionar como uma espécie de pausa mental em meio a uma rotina dominada por notificações, trabalho e telas.
E existe outro aspecto importante quando a idade avança.
Entre pessoas mais velhas, atividades intelectualmente estimulantes, como ler livros, jornais e revistas, estão associadas a um menor risco de declínio cognitivo. Alguns estudos observacionais também encontraram relações entre esses hábitos e uma menor probabilidade de doenças neurodegenerativas.
Mas existe uma diferença importante entre associação e causa.
As pesquisas não permitem afirmar que ler, sozinho, seja capaz de prevenir Alzheimer ou outras doenças. Pessoas que leem regularmente também podem apresentar diferenças em educação, condições socioeconômicas, saúde e outros hábitos que influenciam os resultados.
Ainda assim, a quantidade de associações encontradas ajuda a explicar por que a leitura continua sendo estudada como uma atividade potencialmente importante para o cérebro ao longo da vida.
O livro perfeito pode ser aquele que você realmente quer terminar
Talvez a conclusão mais prática da revisão seja também a mais simples: não existe um gênero literário obrigatório.
Os estudos analisados incluem ficção, jornais, revistas e diferentes formas de leitura. Textos mais complexos podem representar desafios cognitivos específicos, mas isso não significa que seja necessário escolher um livro difícil para obter benefícios.
Na prática, uma pessoa que devora ficção científica, suspense, fantasia ou romance pode estar exercitando o hábito de forma muito mais consistente do que alguém que escolhe um clássico considerado importante, mas abandona a leitura depois de algumas páginas.
A regularidade parece ser uma peça importante dessa equação.
O hábito também pode ganhar uma dimensão social. Ler para crianças pequenas, por exemplo, combina estímulo cognitivo e interação com adultos. Clubes de leitura acrescentam conversa, troca de ideias e socialização à atividade, algo particularmente interessante para pessoas mais velhas.
Pesquisas de neuroimagem também oferecem pistas sobre o que pode estar acontecendo no cérebro. A leitura foi associada a mudanças em regiões relacionadas à linguagem, aprendizagem e regulação emocional, além de diferenças na conectividade entre determinadas áreas.
Ainda não está completamente claro quanto desses efeitos é provocado diretamente pela leitura e quanto resulta das características das pessoas que costumam ler.
No fim, talvez o melhor livro para o cérebro seja simplesmente aquele que faz você querer continuar lendo.