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Ciência

Cogumelos alucinógenos podem reconstruir conexões do cérebro sem provocar alucinações, revela estudo

Cientistas descobriram que a psilocibina reorganiza conexões cerebrais de maneiras diferentes em organismos saudáveis e submetidos ao estresse. O resultado abre possibilidades para futuros tratamentos psiquiátricos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Uma substância presente nos chamados cogumelos mágicos está revelando capacidades inesperadas de modificar o cérebro. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Cruz descobriram que a psilocibina não apenas estimula novas conexões entre neurônios, mas também modifica a maneira como conexões antigas são preservadas ou eliminadas. O achado mais surpreendente é que parte dessas alterações pode ocorrer sem uma resposta comportamental associada aos efeitos psicodélicos.

Psilocibina faz mais do que criar novas conexões cerebrais

A pesquisa, publicada em 15 de outubro de 2026 na revista científica Nature Neuroscience, investigou como a psilocibina modifica a estrutura dos circuitos cerebrais.

A substância é encontrada em determinadas espécies de cogumelos e provoca alterações na percepção, no pensamento e no estado emocional.

Para observar seus efeitos, os cientistas utilizaram uma técnica chamada microscopia de dois fótons, que permite acompanhar estruturas microscópicas em tecidos vivos.

Durante várias semanas, os pesquisadores monitoraram pequenas projeções dos neurônios conhecidas como espinhas dendríticas.

Essas estruturas participam da formação de sinapses, pontos de comunicação entre as células nervosas.

Nas primeiras 24 horas após a administração da psilocibina, os animais apresentaram um aumento na formação dessas estruturas.

Entretanto, os pesquisadores identificaram algo ainda mais interessante: muitas conexões recém-formadas amadureceram rapidamente, adquirindo características associadas a maior estabilidade.

O estudo também mostrou que a substância não provoca simplesmente um crescimento indiscriminado das conexões cerebrais.

Em determinadas condições, o cérebro também elimina conexões antigas, reorganizando seus circuitos.

O cérebro reage de maneira diferente quando está sob estresse

Cogumelos alucinógenos podem reconstruir conexões do cérebro sem provocar alucinações, revela estudo
© Imagem gerada por inteligência artificial – Gizmodo BR

Uma das principais descobertas foi que os efeitos da psilocibina dependem do estado anterior do cérebro.

Em camundongos saudáveis, o número de novas conexões aumentou inicialmente, mas retornou gradualmente aos níveis anteriores durante as três semanas seguintes.

Isso aconteceu porque algumas conexões antigas foram eliminadas enquanto outras surgiam.

O resultado sugere um processo de reorganização, e não apenas de crescimento.

Nos animais submetidos a estresse crônico, entretanto, a resposta foi diferente.

O estresse prolongado pode prejudicar a comunicação neuronal e favorecer a perda de conexões importantes.

Após receberem psilocibina, esses animais apresentaram maior formação de espinhas dendríticas e redução da perda excessiva de conexões associada ao estresse.

Segundo os pesquisadores, o resultado sugere que a substância pode ajudar a preservar estruturas neuronais afetadas por condições adversas.

A descoberta é relevante porque alterações na conectividade cerebral também são investigadas em transtornos como depressão e estresse pós-traumático.

Entretanto, os resultados foram obtidos em camundongos e ainda não demonstram que o mesmo mecanismo produza benefícios clínicos em seres humanos.

Cientistas conseguem separar mudanças cerebrais de efeitos psicodélicos

A parte mais surpreendente da pesquisa envolveu os receptores de serotonina conhecidos como 5-HT2A.

Esses receptores desempenham um papel fundamental na ação de substâncias psicodélicas.

Os pesquisadores investigaram especificamente sua atividade em um grupo de neurônios da camada 5 do córtex cerebral.

Utilizando animais geneticamente modificados, conseguiram restaurar esses receptores apenas nas células selecionadas.

Mesmo assim, a psilocibina continuou estimulando a formação e a estabilização de conexões neuronais.

O detalhe inesperado foi que os animais não apresentaram o movimento característico de sacudir a cabeça, utilizado em pesquisas como indicador indireto de atividade psicodélica.

No experimento inverso, quando os receptores foram removidos dessas células, a formação adicional de conexões deixou de ocorrer, embora o comportamento associado à atividade psicodélica permanecesse.

Isso indica que os mecanismos responsáveis pelas mudanças estruturais podem ser separados daqueles envolvidos nessa resposta comportamental.

É importante destacar que camundongos não conseguem relatar experiências subjetivas. Portanto, a ausência desse movimento não comprova diretamente a ausência de alucinações.

Ainda assim, a descoberta oferece uma pista para desenvolver medicamentos capazes de estimular a neuroplasticidade sem necessariamente reproduzir todos os efeitos dos psicodélicos.

Descoberta pode abrir caminho para novos tratamentos contra depressão

Cogumelos alucinógenos podem reconstruir conexões do cérebro sem provocar alucinações, revela estudo
© Shutterstock / Prostock-studio

A capacidade do cérebro de modificar suas conexões é conhecida como neuroplasticidade.

Esse processo participa da aprendizagem, da memória e da adaptação a novas experiências.

Em determinadas condições psiquiátricas, alterações nos circuitos neuronais podem contribuir para dificuldades relacionadas ao humor e ao comportamento.

Por isso, pesquisadores investigam se medicamentos capazes de estimular a neuroplasticidade poderiam ajudar no tratamento de transtornos mentais.

O novo estudo sugere uma possibilidade: desenvolver substâncias que preservem determinados efeitos celulares da psilocibina sem produzir alterações intensas da percepção.

Essa estratégia poderia facilitar futuras aplicações clínicas, mas ainda precisa ser testada.

A pesquisa não demonstrou que a separação dos mecanismos observada em camundongos seja suficiente para tratar depressão ou transtorno de estresse pós-traumático em pessoas.

Também não significa que o uso de cogumelos alucinógenos seja seguro ou recomendado como automedicação. A psilocibina pode provocar ansiedade intensa, alterações perceptivas e outras reações adversas, especialmente fora de ambientes clínicos supervisionados.

O avanço está na compreensão dos mecanismos celulares, não na comprovação de um novo tratamento.

O que a ciência ainda precisa descobrir?

Os próximos estudos deverão investigar se os mecanismos identificados também estão presentes no cérebro humano.

Outra questão importante será determinar quanto tempo as alterações estruturais permanecem e se elas realmente contribuem para melhorias clínicas.

Pesquisadores também precisarão avaliar possíveis efeitos adversos e identificar quais circuitos cerebrais devem ser estimulados.

O trabalho liderado pela equipe da Universidade da Califórnia em Santa Cruz reforça que os efeitos da psilocibina são mais complexos do que se imaginava.

Em vez de simplesmente aumentar o número de conexões neuronais, a substância parece reorganizá-las de acordo com as condições anteriores do cérebro.

Essa diferença pode ajudar a explicar por que a neuroplasticidade se tornou um dos campos mais promissores da investigação sobre psicodélicos e saúde mental.

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