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Ciência

Síndrome ligada à cannabis provoca alerta após novo reconhecimento da OMS

Quando usuários frequentes de cannabis começam a sentir náuseas severas e vômitos que não passam por nada, a explicação pode estar em uma condição ainda pouco conhecida — mas que acaba de ganhar destaque internacional. Pesquisadores dos Estados Unidos identificaram um aumento expressivo de casos da chamada síndrome da hiperêmese canabinoide, agora oficialmente reconhecida pela OMS com o código R11.16.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Descubra por que a síndrome virou alvo de pesquisas

A síndrome da hiperêmese canabinoide intriga a comunidade médica por afetar apenas parte dos usuários regulares de cannabis, mas gerar crises tão intensas que muitos acabam indo várias vezes ao pronto-socorro. Os sintomas incluem dor abdominal aguda, vômitos persistentes e náuseas que podem durar dias, reaparecendo várias vezes ao ano.

Um estudo citado pela equipe da Universidade de Washington e registrado na plataforma StatPearls aponta uma característica curiosa: muitos pacientes relatam alívio temporário ao tomar banhos extremamente quentes. O detalhe reforça o caráter incomum do distúrbio — e a dificuldade em entender suas causas.

Síndrome ligada à cannabis provoca alerta após novo reconhecimento da OMS
© Pexels

A ciência já sabe que a síndrome está relacionada ao consumo contínuo de cannabis. O que ainda não se explica é por que alguns usuários desenvolvem o quadro e outros não, mesmo com padrões de uso semelhantes. Outro ponto crucial: até agora, o único método comprovado para interromper as crises é parar totalmente o uso da cannabis.

Alerta médico: novo código da OMS facilita diagnóstico

Desde 1º de outubro, a síndrome passou a integrar oficialmente a Classificação Internacional de Doenças, carregando o código R11.16. Isso significa que hospitais, clínicas e pesquisadores agora podem registrar os casos de forma padronizada — algo que antes era praticamente impossível.

Segundo especialistas da Universidade de Washington, esse reconhecimento deve permitir que médicos mapeiem a incidência real do distúrbio, identifiquem padrões e rastreiem grupos de maior risco. Embora a síndrome da hiperêmese canabinoide esteja diretamente ligada ao uso contínuo de cannabis, ainda não há consenso sobre os mecanismos que desencadeiam as crises.

O novo código também representa um alerta global: a condição vem crescendo justamente em países onde o uso recreativo e medicinal da cannabis se tornou mais comum.

Entenda por que o tratamento ainda é um desafio

As crises podem ocorrer até quatro vezes ao ano e são descritas como extremamente debilitantes. Em um paradoxo curioso, a cannabis — usada inclusive para tratar náuseas em pacientes com câncer — pode, nesses casos, causar os mesmos sintomas que costuma aliviar.

A parte mais complicada para os médicos é que medicamentos tradicionais contra enjoo não funcionam bem nesses pacientes. Por isso, o tratamento envolve alternativas como Haldol (um antipsicótico que reduz náuseas) e cremes de capsaicina, que simulam sensação de calor na pele e ajudam a diminuir a dor abdominal.

Além disso, há um obstáculo emocional e comportamental: muitos pacientes resistem ao diagnóstico. Como já utilizavam cannabis para alívio de sintomas, acreditam que a substância não pode ser a responsável pelo problema — o que dificulta a suspensão completa do uso, considerada a única forma eficaz de interromper o ciclo da doença.

Uma condição crescente que exige atenção

A síndrome da hiperêmese canabinoide ainda é pouco discutida, mas já representa um desafio crescente para emergências médicas. A formalização do diagnóstico pela OMS deve ajudar profissionais a identificar mais casos, entender o comportamento da doença e orientar usuários sobre riscos reais do uso contínuo da cannabis.

Em um cenário de expansão da liberação e do consumo, compreender essa síndrome é essencial. A ciência segue investigando, e os próximos anos devem revelar novas respostas — e, possivelmente, novas estratégias de prevenção. A dúvida agora é: quantos usuários serão impactados antes que o alerta se torne amplamente conhecido?

[Fonte: Terra]

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