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Sonda que cria eclipses solares artificiais “ressuscita” após um mês em silêncio — e missão europeia pode voltar a desvendar um dos maiores mistérios do Sol

Após um mês sem contato, um dos satélites da missão Proba-3 voltou a enviar sinais à Terra. O sistema, que cria eclipses solares artificiais no espaço, é uma das apostas mais ousadas da ciência para estudar a misteriosa coroa solar — e entender por que ela é tão mais quente que a superfície do Sol.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A exploração espacial raramente segue o roteiro perfeito. Mesmo nas missões mais avançadas, falhas inesperadas fazem parte do processo. Foi exatamente o que aconteceu com a missão europeia Proba-3, da Agência Espacial Europeia (ESA), quando um de seus satélites simplesmente deixou de responder por cerca de um mês.

Agora, porém, a história ganhou um novo capítulo: a sonda voltou à vida.

Após semanas de silêncio, o satélite Coronagraph restabeleceu contato com a Terra, trazendo alívio para os cientistas e reacendendo as expectativas sobre uma das missões mais inovadoras da atualidade.

Um eclipse solar criado no espaço

Lançada em dezembro de 2024, a missão Proba-3 é composta por dois satélites: o Occulter e o Coronagraph. Juntos, eles realizam algo inédito: criam eclipses solares artificiais no espaço.

A ideia é engenhosa. Um dos satélites bloqueia a luz direta do Sol, projetando uma sombra extremamente precisa sobre o outro, que então consegue observar a coroa solar — a camada mais externa da atmosfera da estrela.

Na Terra, eclipses solares totais são raros e duram poucos minutos. No espaço, com esse sistema, os cientistas conseguem reproduzir o fenômeno de forma controlada e por períodos muito mais longos.

Um mês de silêncio no espaço profundo

O problema começou quando o satélite Coronagraph sofreu uma anomalia em voo e deixou de enviar sinais. Durante semanas, ele permaneceu em silêncio, exposto ao frio extremo do ambiente espacial.

Sem comunicação, os engenheiros não sabiam exatamente o estado da nave, o que colocou a missão em risco.

O contato foi finalmente restabelecido por uma estação terrestre na Espanha, que conseguiu receber dados básicos de telemetria, incluindo temperatura, voltagem e o estado geral dos sistemas a bordo.

Ainda em modo de segurança

Apesar da recuperação, o trabalho está longe de terminar. O satélite ainda está em “modo seguro”, uma configuração automática que prioriza a sobrevivência da nave.

Nesse estado, o painel solar permanece voltado para o Sol, garantindo energia para os sistemas essenciais e permitindo o recarregamento da bateria.

As equipes agora analisam cuidadosamente os dados recebidos para avaliar se houve danos e determinar quando — e se — o satélite poderá retomar suas operações normais.

Uma dança de precisão milimétrica

O grande diferencial da missão Proba-3 está na precisão. Os dois satélites voam a cerca de 150 metros de distância um do outro, mantendo essa separação com precisão de milímetros.

Esse alinhamento extremo é o que permite criar o “eclipse artificial” e transformar os dois dispositivos em um único telescópio virtual.

Cada órbita ao redor da Terra leva cerca de 19 horas e 36 minutos, e durante aproximadamente seis horas por ciclo os satélites realizam observações da coroa solar.

O mistério da coroa solar

A coroa é uma das regiões mais intrigantes do Sol. Embora esteja mais distante do núcleo, ela é até 200 vezes mais quente que a superfície solar — um paradoxo que intriga cientistas há décadas.

Além disso, é dessa região que surgem fenômenos como o vento solar e as ejeções de massa coronal, que podem impactar diretamente a Terra, afetando satélites, redes elétricas e sistemas de comunicação.

Com observações mais detalhadas, a missão Proba-3 pode ajudar a responder essas perguntas e melhorar a previsão do chamado “clima espacial”.

Um passo importante para o futuro da exploração

Mais do que seus objetivos científicos, a missão também representa um avanço tecnológico significativo. Demonstrar que duas naves podem voar em formação com precisão extrema abre caminho para novas formas de observação espacial.

O retorno do satélite Coronagraph é, portanto, mais do que uma recuperação técnica — é a chance de manter viva uma missão que pode redefinir como estudamos o Sol.

Agora, resta saber quando os dois parceiros voltarão a voar sincronizados. Se tudo correr bem, o espetáculo dos eclipses artificiais ainda tem muito a revelar.

 

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