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Ciência

Uma única experiência psicodélica pode alterar o cérebro, sugere pesquisa

Um estudo recente encontrou sinais físicos incomuns no cérebro após o uso de psilocibina. As mudanças parecem estar ligadas à intensidade da experiência psicodélica.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, substâncias psicodélicas foram tratadas como tabu científico. Hoje, porém, elas começam a ocupar laboratórios, universidades e centros de pesquisa de prestígio ao redor do mundo. A psilocibina — composto presente nos chamados “cogumelos mágicos” — está no centro dessa nova onda de estudos. E um experimento recente trouxe um detalhe que chamou atenção dos pesquisadores: talvez uma única experiência psicodélica seja capaz de provocar alterações físicas mensuráveis no cérebro humano.

A ciência tenta entender o que realmente acontece durante uma experiência psicodélica

Uma única experiência psicodélica pode alterar o cérebro, sugere pesquisa
© https://x.com/SensoCrtico1

Pesquisadores vêm estudando há anos os possíveis efeitos terapêuticos da psilocibina em quadros como depressão, ansiedade e dependência química. Diversos estudos já sugeriram benefícios psicológicos importantes após o uso controlado da substância.

Mas existia uma pergunta que permanecia sem resposta clara: afinal, o que muda no cérebro depois de uma experiência psicodélica?

Um novo estudo publicado na revista científica Nature Communications tentou se aproximar dessa resposta.

A pesquisa analisou 28 pessoas em Londres que nunca haviam usado psicodélicos anteriormente e não possuíam histórico de transtornos psiquiátricos diagnosticados. O experimento acompanhou alterações cerebrais antes, durante e semanas após o uso de psilocibina.

Os pesquisadores liderados por Robin Carhart-Harris, professor de neurologia da Universidade da Califórnia em San Francisco, utilizaram eletroencefalogramas e exames avançados de ressonância magnética para monitorar o cérebro dos participantes.

Os resultados chamaram atenção porque sugerem que experiências psicodélicas intensas podem alterar a comunicação entre regiões cerebrais associadas à regulação emocional, controle de impulsos e padrões de pensamento.

O cérebro parece reagir de forma diferente após a psilocibina

No início do estudo, os participantes receberam uma dose muito baixa de psilocibina, considerada insuficiente para provocar efeitos psicodélicos relevantes. Essa etapa serviu como comparação para os exames posteriores.

Um mês depois, os voluntários receberam 25 miligramas da substância — dose considerada padrão em terapias experimentais envolvendo psilocibina.

Após a administração, os cientistas acompanharam a atividade cerebral durante horas e continuaram realizando exames ao longo das semanas seguintes.

Um dos focos da análise foi observar como a água se movimentava através das fibras neuronais em determinadas regiões cerebrais. Esse tipo de exame permite identificar possíveis mudanças estruturais nas conexões do cérebro.

Os pesquisadores notaram alterações em alguns “tractos” neurais que conectam a região pré-frontal — responsável por funções ligadas ao controle emocional e tomada de decisões — às áreas centrais do cérebro.

Segundo os cientistas, o fluxo de água nessas conexões pareceu diminuir após o tratamento, indicando possíveis mudanças físicas nessas vias neurais.

Embora isso não signifique literalmente uma “reestruturação completa do cérebro”, o achado sugere que algo relevante acontece nas conexões neurais depois da experiência psicodélica.

Quanto mais intensa a experiência, maiores pareciam ser as mudanças

Um dos pontos mais interessantes do estudo envolve justamente a relação entre intensidade da experiência e magnitude das alterações cerebrais observadas.

Os participantes que relataram viagens psicodélicas mais profundas também apresentaram mudanças mais significativas nos exames realizados semanas depois.

Além disso, essas pessoas frequentemente descreveram sensações de introspecção intensa, maior clareza emocional e mudanças importantes na forma de enxergar determinados padrões mentais.

Segundo Carhart-Harris, ainda não existe consenso sobre o significado exato dessas alterações. Mas os resultados fortalecem uma teoria que divide pesquisadores há anos.

Parte da comunidade científica acredita que os efeitos terapêuticos dos psicodélicos dependem diretamente da experiência subjetiva vivida durante o “trip”. Outra corrente defende que o benefício estaria apenas na ação química da substância, independentemente da experiência intensa.

O novo estudo parece favorecer a primeira hipótese.

Os pesquisadores observaram que níveis maiores de atividade cerebral durante a experiência estavam associados a alterações mais fortes nas conexões neurais posteriormente.

O cérebro pode entrar em um estado temporário de reorganização

Uma das teorias mais discutidas atualmente envolve a chamada plasticidade cerebral — a capacidade do cérebro de reorganizar conexões neurais ao longo do tempo.

Segundo especialistas, experiências psicodélicas podem temporariamente “desorganizar” padrões rígidos de funcionamento cerebral, criando espaço para novas formas de conexão mental.

Joshua Siegel, professor de psiquiatria da NYU Langone Health, explicou que diversos estudos anteriores em animais já haviam sugerido aumento de sinapses em regiões ligadas à emoção e à depressão após exposição a psicodélicos.

O problema é que pesquisas com seres humanos possuem limitações óbvias. Diferentemente de estudos com animais, os cientistas precisam depender de imagens cerebrais indiretas para tentar interpretar o que acontece.

Mesmo assim, os novos resultados aumentaram o interesse científico sobre a possibilidade de que substâncias psicodélicas provoquem efeitos duradouros justamente porque alteram temporariamente a forma como o cérebro organiza suas conexões.

A pesquisa ainda está no começo — mas o interesse cresce rapidamente

Apesar do entusiasmo gerado pelo estudo, os próprios pesquisadores fazem questão de destacar que ainda existem muitas dúvidas.

O experimento envolveu um número pequeno de participantes e possui caráter exploratório. Especialistas afirmam que serão necessários estudos maiores para confirmar se as alterações observadas realmente produzem benefícios terapêuticos duradouros.

Ainda assim, o interesse pela área cresce rapidamente.

Recentemente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump assinou uma ordem executiva destinada a acelerar pesquisas envolvendo psicodélicos como psilocibina e ibogaína.

Enquanto isso, empresas farmacêuticas seguem buscando aprovação regulatória para terapias assistidas por psicodélicos voltadas principalmente para depressão resistente.

O que mais intriga os cientistas talvez seja justamente o fato de que, ao contrário de muitos medicamentos tradicionais, algumas pessoas relatam benefícios emocionais persistentes mesmo depois que os efeitos imediatos da substância desaparecem.

E entender por que isso acontece pode abrir uma das áreas mais inesperadas da neurociência moderna.

[Fonte: Telemundo]

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