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Ciência

Sonhar acordado: o transtorno que afasta da realidade sem que você perceba

Devaneios constantes e intensos podem parecer apenas fruto da imaginação fértil — mas e quando eles tomam o controle da sua rotina? Conheça o transtorno do devaneio excessivo, seus sintomas silenciosos e os impactos profundos que ele pode causar na saúde física, mental e social. Entenda também como buscar apoio e retomar o foco na vida real.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Você já se viu perdido em pensamentos ao ponto de ignorar tudo ao redor? Embora sonhar acordado seja algo natural, para algumas pessoas esse hábito ganha proporções maiores. O transtorno do devaneio excessivo é uma condição pouco conhecida, mas capaz de comprometer o dia a dia. Neste artigo, explicamos o que é, como identificar seus sinais e que caminhos existem para o tratamento.

O que é o transtorno do devaneio excessivo?

Sonhar acordado: o transtorno que afasta da realidade sem que você perceba
© Pexels

Chamado em inglês de Maladaptive Daydreaming, esse transtorno é marcado por fantasias ricas em detalhes, prolongadas e recorrentes que ocupam boa parte do tempo e substituem as interações com o mundo real. Diferente dos devaneios comuns, que são passageiros, esse tipo de imaginação se torna tão envolvente que compromete a rotina, os relacionamentos e as obrigações.

As pessoas afetadas passam horas imersas em tramas fictícias, que frequentemente incluem personagens criados por elas, narrativas contínuas e até trilhas sonoras mentais. Apesar de não ser oficialmente reconhecido nos manuais diagnósticos, como o DSM-5, o transtorno tem sido cada vez mais estudado e discutido em comunidades clínicas.

Sintomas mais comuns

Os sinais mais recorrentes desse distúrbio incluem:

  • Fantasias elaboradas e recorrentes, com enredos complexos;
  • Desejo constante de se isolar para continuar os devaneios;
  • Dificuldade de concentração em atividades reais;
  • Repetição de movimentos físicos (como andar em círculos) durante o devaneio;
  • Sensações de prazer ou alívio emocional ao imaginar;
  • Culpa ou frustração por perder tempo;
  • Percepção clara da diferença entre fantasia e realidade.

Esses sintomas interferem diretamente na qualidade de vida e produtividade, levando muitas vezes à negligência de tarefas básicas e relações pessoais.

Possíveis causas

Ainda não há consenso sobre as origens do transtorno, mas diversos fatores parecem contribuir:

  • Histórico de traumas ou negligência na infância;
  • Isolamento social e dificuldade de interação;
  • Transtornos psiquiátricos associados, como ansiedade, TDAH e depressão;
  • Ambientes pouco estimulantes ou rotina monótona;
  • Alta sensibilidade emocional e criatividade acima da média.

A combinação desses elementos pode criar um cenário propício para o uso das fantasias como um mecanismo de fuga.

Consequências para a saúde

A longo prazo, o transtorno pode afetar diversas áreas da vida:

  • Afastamento de vínculos reais e problemas de relacionamento;
  • Queda no desempenho escolar ou profissional;
  • Quadro de insônia, devido à hiperatividade mental;
  • Sintomas depressivos por frustração e sentimento de improdutividade;
  • Dores musculares e sedentarismo devido à inatividade física prolongada.

Apesar de parecer apenas um comportamento excêntrico, o devaneio excessivo pode trazer sérias implicações físicas e mentais se não for compreendido e tratado.

Desafios no diagnóstico

Por ainda não constar nos principais manuais médicos, o transtorno frequentemente é confundido com distração ou simples escapismo. Muitos pacientes convivem com os sintomas por anos sem saber que existe um padrão clínico para o que sentem.

Hoje, profissionais da saúde mental recorrem à Escala de Devaneio Excessivo de Somer como ferramenta de triagem, mas o diagnóstico ainda depende principalmente de uma escuta clínica atenta e empática.

Caminhos para o tratamento

Embora não haja tratamento específico e universalmente aprovado, diversas estratégias têm mostrado eficácia:

  • Terapia cognitivo-comportamental (TCC): ajuda a identificar padrões mentais e desenvolver estratégias para reduzir os episódios.
  • Mindfulness e meditação: estimulam o foco no presente e reduzem a dispersão mental.
  • Criação de rotinas estruturadas: minimiza o tempo ocioso e reduz os gatilhos para os devaneios.
  • Tratamento de comorbidades: ao cuidar de quadros como ansiedade ou TDAH, é possível aliviar os sintomas.
  • Grupos de apoio: oferecem acolhimento e trocas valiosas com pessoas que vivem situações semelhantes.

O mais importante é entender que procurar ajuda não é sinal de fraqueza, mas sim um passo essencial para recuperar o equilíbrio.

Viver o presente é um ato de coragem

Sonhar é parte essencial da natureza humana, mas quando a fantasia se torna refúgio constante e prejudica a vida real, é hora de repensar. O transtorno do devaneio excessivo ainda é pouco reconhecido, mas o sofrimento que provoca é real — e há caminhos para enfrentá-lo.

Se você se identificou com os sintomas, saiba que há profissionais capacitados para ajudar. Com apoio adequado e estratégias personalizadas, é possível voltar a viver com presença, propósito e plenitude. Afinal, a imaginação pode ser poderosa — mas viver a realidade com consciência é ainda mais transformador.

[Fonte: Olhar digital]

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