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Tecnologia

Starlink enterra de vez o espírito original do Burning Man

O Burning Man já não é mais o que era — e agora pode ter recebido o último prego no caixão. A chegada da Starlink, rede de satélites de Elon Musk, levou internet rápida ao coração do deserto de Nevada, e isso está deixando os veteranos do festival em choque. Afinal, como “se desconectar do mundo” se todo mundo está… online?
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Tempo de leitura: 2 minutos

A polêmica da Starlink no meio do nada

Segundo o Wall Street Journal, o fotógrafo Kevin LeVezu, frequentador assíduo do Burning Man, levou sua antena Starlink para o acampamento iForgot, onde montou um hotspot de Wi-Fi. A conexão é “liberada”, mas com um preço inusitado: os participantes precisavam escolher entre tomar um shot de uísque ou levar um tapinha para acessar a rede. Aparentemente, muita gente aceitou a proposta.

A presença da Starlink escancarou uma mudança de comportamento que já vinha acontecendo há anos. Em 2018, o SFGate publicou uma reportagem mostrando que a magia de “se desconectar” no deserto já estava ameaçada com a chegada do sinal de celular à região. Era comum ver gente fazendo chamadas por FaceTime durante a cerimônia final ou até caçando Pokémon no Pokémon Go.

Agora, com internet via satélite e conexão de alta velocidade, o conceito original de isolamento parece ter sido completamente abandonado.

De um festival alternativo a um playground bilionário

O Burning Man nasceu nos anos 1980 com princípios de inclusão radical, autossuficiência e autoexpressão. Mas essa essência começou a se perder quando os magnatas do Vale do Silício descobriram o evento e passaram a transformá-lo em um festival de luxo.

Hoje, participar do Burning Man pode custar milhares de dólares. Além do preço salgado dos ingressos, há um verdadeiro microcosmo econômico envolvendo aluguel de barracas VIP, motorhomes luxuosos, serviços de chef particulares e até segurança privada. A filosofia de “desmercantilização” foi praticamente enterrada debaixo de dólares e antenas.

Elon Musk, Zuckerberg e o clube dos bilionários

A relação entre o Vale do Silício e o Burning Man ficou explícita nos últimos anos. O próprio Elon Musk já declarou que “o Burning Man é o Vale do Silício”. O bilionário Tyler Winklevoss descreveu sua experiência no evento como “espiritual”. Já Mark Zuckerberg decidiu ir de helicóptero — um detalhe que, por si só, contradiz totalmente o espírito do festival.

Ironia das ironias: boa parte desses bilionários, defensores de “liberdade criativa” e “conexão humana”, voltaram do deserto para tocar empresas multibilionárias que despejam comunidades inteiras de suas casas, exploram mão de obra barata e degradam o meio ambiente.

Adeus, Orgy Dome — e ao que restava do Burning Man

Até os ícones mais excêntricos do festival estão desaparecendo. O famoso Orgy Dome, espaço lendário de “liberdade sexual” dentro do Burning Man, foi destruído recentemente, e agora o que restava da essência do evento parece ter se perdido de vez.

O festival, que um dia simbolizou a quebra de regras e a criação de uma comunidade alternativa, se transformou em um evento instagramável onde a prioridade é manter o feed atualizado — graças, claro, à Starlink.

O fim de uma era

Com internet rápida, ingressos caríssimos e bilionários monopolizando a cena, o Burning Man já não é mais aquele refúgio de liberdade e desconexão. Agora, é mais um espetáculo patrocinado, cercado por antenas, câmeras e algoritmos.

Talvez o último ato de rebeldia seja… desligar o Wi-Fi.

 

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