Nas últimas semanas, um filme se destacou como o mais assistido da Netflix em todo o mundo, somando 30 milhões de visualizações em apenas sete dias. Ambientado em um universo alternativo, “The Electric State” não apenas reinventa a ficção científica com uma roupagem nostálgica, mas também levanta questões sobre o impacto da tecnologia, o papel da inteligência artificial e os paradoxos do entretenimento moderno.
Uma viagem por um passado que nunca foi real
Dirigido pelos irmãos Anthony e Joe Russo, conhecidos por seus trabalhos no Universo Cinematográfico da Marvel, “The Electric State” é uma adaptação da graphic novel homônima de Simon Stålenhag. O filme propõe uma releitura imaginativa dos anos 1990, apresentando um cenário onde a tecnologia evoluiu de maneira vertiginosa, levando a uma coexistência frágil entre humanos e máquinas — até que uma insurreição robótica força o exílio das IA em uma terra esquecida.
A trama acompanha Michelle (Millie Bobby Brown), uma jovem que cruza um país em colapso ao lado de um robô silencioso, tentando encontrar seu irmão desaparecido. No entanto, o enredo vai além de uma simples jornada de resgate, explorando temas como memória, consciência artificial e os efeitos das big techs sobre a paisagem cultural contemporânea.
Um espetáculo visual que resgata o espírito dos anos 1990
Esteticamente, o filme é ambicioso. Enquanto outras adaptações da obra de Stålenhag, como “Tales from the Loop”, optam por uma abordagem mais contemplativa, os irmãos Russo preferem um ritmo acelerado, próximo ao dos blockbusters modernos. Com paisagens marcadas por outdoors desbotados, estradas infinitas e ruínas tecnológicas, o longa cria uma atmosfera de futuro melancólico, que remete a um passado que nunca foi real, mas que parece familiar.
A trilha sonora de Alan Silvestri complementa essa estética com perfeição, especialmente na releitura de “Wonderwall”, do Oasis, tocada com harpa e piano — um símbolo sonoro dessa nostalgia recriada.
Elenco entre o carisma e a frieza tecnológica
Millie Bobby Brown entrega uma performance sólida como protagonista, transmitindo vulnerabilidade e determinação. Ao seu lado, Chris Pratt interpreta Keats, um contrabandista que parece saído diretamente dos moldes de Indiana Jones ou Han Solo. Embora o personagem careça de maior profundidade, o carisma de Pratt sustenta o papel.
Quem realmente se destaca é Stanley Tucci como Ethan Skate, um bilionário do setor tecnológico que representa o poder corporativo em sua forma mais fria e distorcida. O personagem evoca figuras reais como Jeff Bezos e também remete à figura do controlador em “O Show de Truman”, oferecendo uma representação inquietante do domínio das big techs sobre a sociedade.
Inteligência artificial: criação ou entidade?
O elemento mais provocador de “The Electric State” está na forma como lida com a inteligência artificial. Os robôs presentes no filme não são apenas ferramentas, mas agentes com consciência, desejos e identidade. O longa flerta com a ideia de que, em determinado ponto, a IA pode ultrapassar sua função original e reivindicar existência própria.
Apesar disso, o roteiro prefere usar essa temática como pano de fundo para cenas de ação e efeitos visuais, em vez de mergulhar profundamente nas questões filosóficas e éticas que ela levanta. A inteligência artificial, nesse sentido, aparece mais como uma estética narrativa do que como uma provocação central.
Os limites e as virtudes do espetáculo
Embora visualmente impressionante e tematicamente promissor, o filme por vezes se rende às convenções do cinema de ação contemporâneo. O ritmo acelerado e a necessidade constante de movimento impedem que a narrativa respire e aprofunde seus momentos mais contemplativos. Ainda assim, o longa evita cair em previsibilidades comuns, optando por caminhos narrativos menos óbvios e construindo um universo que foge do molde típico dos algoritmos de streaming.
Essa abordagem, ainda que imperfeita, revela um desejo de resistência criativa em meio a um mercado cada vez mais dominado por fórmulas. Em vez de seguir exclusivamente o que o público espera, “The Electric State” arrisca, criando um mundo próprio que dialoga com nossas memórias culturais — mesmo aquelas que jamais existiram.
Um futuro de lembranças inventadas
Ao fundir passado e futuro, tecnologia e nostalgia, “The Electric State” propõe que talvez a ficção científica mais relevante de hoje não seja aquela que prevê o que está por vir, mas sim a que reconstrói versões alternativas do que poderíamos ter sido. Essa ideia de memória fabricada — de uma nostalgia por tempos que nunca existiram — é o que dá ao filme sua identidade única.
Ainda que não alcance todo o potencial de suas reflexões, a produção consegue equilibrar espetáculo e conceito o suficiente para justificar seu sucesso de audiência. Em um universo audiovisual saturado por repetições e fórmulas, um filme que ousa imaginar um passado impossível para repensar o futuro já merece atenção.
E talvez seja por isso que “The Electric State” tenha conquistado milhões de espectadores ao redor do mundo: não apenas por suas cenas eletrizantes, mas por evocar, mesmo que brevemente, um tipo de emoção coletiva que parece esquecida — e ao mesmo tempo reconhecível. Uma jornada futurista que toca naquilo que ainda desejamos lembrar.
[Fonte: Revista Bula]