Terra e Marte surgiram há cerca de 4,5 bilhões de anos no disco de gás e poeira que cercava o jovem Sol. A proximidade poderia sugerir histórias de formação semelhantes. Uma pesquisa liderada por cientistas da Universidade de Copenhague, porém, indica diferenças importantes. Ao investigar pistas químicas preservadas nos planetas, a equipe encontrou sinais de que os mesmos mecanismos de crescimento participaram de suas origens em proporções distintas.
Duas maneiras de construir um planeta

Os pesquisadores analisaram uma combinação de processos. Um deles envolve colisões entre planetesimais, corpos rochosos que serviram como blocos de construção dos planetas. Outro consiste na captura de partículas pequenas, conhecida como acreção de seixos.
Nesse segundo caminho, um corpo em crescimento acumula material transportado pelo disco de gás. Com o tempo, pode alcançar dimensões de um protoplaneta, uma espécie de precursor planetário.
Segundo a Universidade de Copenhague, os resultados favorecem um modelo híbrido, no qual ambos os mecanismos contribuíram. A diferença está na importância relativa de cada um para a Terra e Marte.
A pergunta, portanto, passa a ser quanto material cada caminho forneceu. Essa abordagem permite comparar histórias de crescimento sem exigir que todos os planetas rochosos sigam a mesma receita.
A Terra cresceu principalmente a partir de dois protoplanetas

O estudo publicado na Nature Astronomy, em 25 de setembro de 2026, utilizou modelos estatísticos para reproduzir a composição da parte rochosa dos planetas, excluindo seus núcleos metálicos.
No cenário de referência, pelo menos aproximadamente 75% do material terrestre teria vindo de dois protoplanetas que cresceram capturando seixos. Planetesimais com composição semelhante à do asteroide Vesta contribuiriam com até cerca de 25%.
Para Marte, a proporção aparece praticamente invertida: aproximadamente 73% de material associado a planetesimais e 27% à captura de seixos, com margens de incerteza de cinco pontos percentuais.
Isso não elimina grandes impactos da história terrestre. O cenário combina o crescimento prévio dos protoplanetas com sua posterior participação na montagem do planeta.
Elementos químicos guardam pistas do passado
A investigação observa elementos como sódio, potássio e zinco, que passam ao estado gasoso com relativa facilidade quando aquecidos. Suas abundâncias ajudam a avaliar como o material sofreu aquecimento e perdeu componentes durante a formação.
A equipe tratou essas diferenças como uma impressão química dos processos antigos. Em vez de observar diretamente acontecimentos desaparecidos há bilhões de anos, comparou as composições atuais com resultados previstos por modelos.
A ideia já aparecia em um trabalho apresentado pelos autores em 2025. Naquela etapa, eles investigavam a perda de elementos durante a captura de seixos em conjunto com a incorporação de planetesimais previamente empobrecidos em substâncias voláteis.
As proporções dependem das hipóteses
Os números representam estimativas, não uma contagem definitiva dos corpos que formaram cada mundo. Uma hipótese importante envolve usar Vesta como referência para a composição dos planetesimais.
O próprio artigo mostra que uma composição alternativa pode elevar a contribuição desses corpos para a Terra a aproximadamente 40%. Os resultados delimitam caminhos possíveis e oferecem novas restrições ao debate sobre a formação planetária.
Essa investigação também interessa ao estudo de planetas ao redor de outras estrelas. Entender como materiais perdem substâncias voláteis pode ajudar a avaliar o que mundos rochosos conseguem conservar, incluindo componentes relevantes para a presença de água.
A proximidade entre Terra e Marte, assim, não exige origens idênticas. Suas diferenças químicas oferecem uma janela para reconstruir como partículas, rochas e grandes impactos produziram dois vizinhos com trajetórias próprias.