Da próxima vez que você olhar para a Lua cheia, vale imaginar que ela pode ser fruto de um evento violento e decisivo na história do Sistema Solar. Há cerca de 4,5 bilhões de anos, um planeta do tamanho de Marte — apelidado de Theia — pode ter colidido com a jovem Terra, dando origem ao nosso único satélite natural.
Essa ideia, conhecida como hipótese do grande impacto, é hoje a explicação mais aceita para a formação da Lua. Mais do que um detalhe cósmico, esse evento pode ter sido essencial para tornar a Terra um planeta habitável.
Uma colisão que mudou tudo
ONDE NASCEU THEIA?
Uma nova pesquisa revelou a origem do planeta Theia, que colidiu com a Terra para formar a Lua. Descubra como a análise de isótopos em rochas lunares provou que Theia nasceu no Sistema Solar interno, perto da Terra.
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— Sacani (Space Today) – AKA Gordão Foguetes (@SpaceToday1) November 21, 2025
Segundo os cientistas, o impacto entre a Terra primitiva e Theia foi de proporções gigantescas. A energia liberada teria vaporizado parte dos dois corpos celestes, lançando uma enorme quantidade de material ao espaço.
Com o tempo, esses detritos se agruparam sob a ação da gravidade e formaram a Lua. Esse processo não aconteceu da noite para o dia, mas marcou o início de uma relação fundamental para o equilíbrio do nosso planeta.
A presença da Lua exerce um efeito gravitacional constante sobre a Terra, ajudando a estabilizar a inclinação do seu eixo de rotação. Esse detalhe é crucial: sem essa estabilidade, o clima terrestre seria muito mais caótico, com variações extremas ao longo do tempo.
O planetólogo Thorsten Kleine, do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar, destaca que essa estabilidade foi essencial para o desenvolvimento da vida. Sem ela, a Terra poderia ter enfrentado condições muito mais hostis.
De hipóteses rivais a um novo modelo
Antes das missões espaciais, os cientistas consideravam outras explicações para a origem da Lua. Uma delas era a teoria da fissão, que sugeria que a Terra em rotação rápida teria ejetado material que deu origem ao satélite.
Outra hipótese era a da captura, segundo a qual a Lua teria se formado em outro ponto do Sistema Solar e sido capturada pela gravidade terrestre. Havia ainda a teoria da coformação, que propunha que Terra e Lua teriam surgido juntas, lado a lado.
Essas ideias, porém, perderam força após as missões Apollo da NASA, que trouxeram amostras de rochas lunares para a Terra.
O que as rochas lunares revelaram

A análise dessas amostras revelou algo surpreendente: as rochas da Lua têm uma composição química muito semelhante à da Terra. Esse dado foi fundamental para reforçar a hipótese do grande impacto.
O astrônomo Raman Prinja, do University College London, explica que essas semelhanças indicam uma origem comum. Além disso, as rochas mostram sinais de formação sob temperaturas extremamente altas, compatíveis com um evento catastrófico.
Outro detalhe importante é a ausência de elementos voláteis — substâncias que evaporam facilmente — o que sugere que a Lua já nasceu em estado parcialmente fundido.
Avanços recentes em modelagem computacional também fortaleceram essa teoria, simulando cenários em que a colisão com Theia poderia explicar não apenas a formação da Lua, mas até a inclinação atual do eixo da Terra.
Afinal, o que aconteceu com Theia?
Apesar dos avanços, uma pergunta continua em aberto: qual foi o destino de Theia?
Diferentemente de impactos mais recentes, como o asteroide que levou à extinção dos dinossauros, não há uma cratera visível associada a esse evento. Isso se deve, em parte, ao tamanho relativo dos corpos envolvidos.
Theia teria cerca de 10% da massa da Terra. Ao colidir, grande parte do seu material teria sido absorvida pelo nosso planeta, enquanto o restante contribuiu para a formação da Lua.
Ainda assim, os cientistas esperariam encontrar “assinaturas químicas” distintas de Theia na Lua — algo que não foi claramente identificado até hoje. Uma possível explicação é que ambos os corpos se formaram na mesma região do Sistema Solar e tinham composições muito parecidas.
Estudos recentes, no entanto, sugerem que vestígios de Theia podem estar escondidos nas profundezas da Terra, em estruturas gigantes no manto conhecidas como províncias de baixa velocidade sísmica.
O futuro da investigação lunar
Apesar de décadas de pesquisa, ainda há muito a descobrir sobre a origem da Lua. É por isso que a comunidade científica acompanha com entusiasmo as missões Artemis, da NASA, que pretendem levar humanos de volta ao satélite.
Diferentemente das missões Apollo, que exploraram uma região limitada da Lua, as novas missões vão investigar áreas inéditas, como o polo sul lunar. Essas regiões podem guardar pistas importantes sobre os primeiros momentos da Lua — e da própria Terra.
Como destaca a geóloga lunar Sarah Valencia, da NASA, explorar apenas uma pequena parte da Lua é como tentar entender toda a Terra visitando poucos lugares. O potencial científico ainda é enorme.
Por enquanto, o que sabemos já é suficiente para uma conclusão fascinante: a Lua, que ilumina nossas noites, pode ser o resultado direto de um dos eventos mais violentos da história do Sistema Solar — e talvez devamos a ela, e a Theia, a própria existência da vida na Terra.
[ Fonte: BBC ]