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Ciência

Três em cada quatro pessoas já sentiram algo parecido — o cérebro ainda guarda mistérios sobre o déjà vu

Uma cena completamente nova pode provocar uma certeza desconcertante de que aquilo já aconteceu. Experimentos sugerem que a explicação está em um conflito curioso dentro dos sistemas de memória.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Você entra em um lugar onde nunca esteve, alguém começa uma conversa e, durante alguns segundos, tudo parece estranhamente familiar. Não é apenas uma semelhança vaga: existe a sensação quase convincente de que aquele momento já aconteceu. O problema é que você também sabe que isso não faz sentido. Esse choque entre duas certezas incompatíveis está no centro do déjà vu — um fenômeno comum que oferece pistas surpreendentes sobre como o cérebro reconhece nossas experiências.

A sensação aparece antes que o cérebro consiga encontrar uma lembrança

A expressão francesa déjà vu significa literalmente “já visto”. Apesar das interpretações populares envolvendo premonições ou vidas passadas, a neurociência investiga o fenômeno principalmente como uma ilusão de familiaridade.

E ele está longe de ser raro.

Uma revisão sistemática recente estima que aproximadamente três em cada quatro pessoas saudáveis já experimentaram essa sensação pelo menos uma vez.

Para entender o que acontece, é necessário separar dois processos mentais que normalmente trabalham em conjunto.

O primeiro é a familiaridade. É aquela impressão rápida de que um rosto, lugar ou situação já é conhecido.

O segundo é a recuperação consciente da memória que explica essa familiaridade.

Ao entrar em um restaurante que você já visitou, por exemplo, não apenas reconhece o ambiente: normalmente consegue lembrar quando esteve ali.

No déjà vu, algo parece sair de sincronia.

A sensação de familiaridade aparece com força, mas o cérebro não encontra uma memória específica capaz de justificá-la. Ao mesmo tempo, você mantém consciência suficiente para perceber que a situação atual é realmente nova.

É justamente esse conflito — “isso parece conhecido” contra “eu sei que nunca aconteceu” — que pode estar no centro da experiência.

Mas resta outra pergunta: por que uma situação inédita conseguiria ativar a familiaridade?

Uma possível resposta apareceu em experimentos realizados com realidade virtual.

Um lugar novo pode esconder a estrutura de outro que você já esqueceu

Pesquisadores liderados por Anne Cleary apresentaram diferentes cenários tridimensionais a participantes de experimentos.

Algumas cenas novas tinham uma característica cuidadosamente planejada: sua organização espacial era semelhante à de ambientes vistos anteriormente, mesmo quando os voluntários não conseguiam lembrar conscientemente daqueles lugares anteriores.

Quando essa estrutura se repetia, aumentavam tanto a familiaridade quanto a probabilidade de surgir déjà vu.

Imagine entrar pela primeira vez em um restaurante. Você nunca viu aquele estabelecimento, mas a posição das mesas, corredores, balcões e outros elementos lembra discretamente um lugar visitado anos antes.

Você talvez não consiga recuperar aquela memória.

Seu cérebro, porém, pode detectar o padrão.

Nesse cenário, o déjà vu surgiria porque alguma característica da experiência atual corresponde a uma representação armazenada, produzindo familiaridade sem entregar a lembrança que deveria explicá-la.

Há ainda outra hipótese complementar.

Pesquisadores da Universidade de St Andrews utilizaram ressonância magnética funcional durante uma situação experimental semelhante ao déjà vu e observaram atividade em regiões como córtex cingulado anterior, córtex pré-frontal medial e áreas parietais.

Essas regiões estão envolvidas, entre outras funções, na identificação e resolução de informações conflitantes.

Isso abre uma possibilidade fascinante: talvez o cérebro não esteja simplesmente cometendo um erro. Ele também pode estar percebendo que existe um erro.

O déjà vu pode ser justamente a sensação de flagrar o cérebro em uma contradição

Uma parte do sistema produz familiaridade. Outra verifica a situação e conclui que aquela sensação não combina com as informações disponíveis.

A experiência consciente desse choque poderia ser aquilo que chamamos de déjà vu.

O fenômeno também muda ao longo da vida. Estudos clássicos indicam que ele tende a ser mais frequente entre pessoas jovens e diminuir com a idade.

Fatores como cansaço e estresse também aparecem associados ao déjà vu em alguns estudos, embora isso não permita afirmar que provoquem diretamente algum tipo de “atraso” entre circuitos cerebrais.

Na maioria das pessoas saudáveis, episódios ocasionais são comuns e não indicam um problema neurológico.

Existe, entretanto, um contexto diferente.

Sensações de déjà vu podem ocorrer associadas a determinadas crises epilépticas, especialmente em condições envolvendo o lobo temporal. Esses episódios não são necessariamente equivalentes ao déjà vu cotidiano e podem vir acompanhados de outras manifestações neurológicas.

Para a ciência, portanto, essa estranha sensação pode ser mais interessante do que um simples “bug” da memória.

Algo na experiência atual pode ativar uma sensação de familiaridade enquanto outros mecanismos reconhecem que não existe uma lembrança válida capaz de explicá-la.

Durante alguns segundos, percebemos conscientemente essa incompatibilidade.

E talvez seja exatamente por isso que o déjà vu pareça tão estranho: não sentimos apenas que já vivemos aquele momento — sentimos isso enquanto sabemos que é impossível.

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