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Tecnologia

A IA já entrou na rotina de milhões de pessoas, mas uma nova divisão digital começa a preocupar especialistas

A inteligência artificial avança pelo trabalho, pelos estudos e até pelas tarefas domésticas. Agora, uma iniciativa quer enfrentar um problema que pode crescer junto com essa revolução.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Pedir uma receita com o que sobrou na geladeira, escrever um e-mail ou organizar uma tarefa profissional são usos aparentemente simples da inteligência artificial. Mas eles escondem uma transformação muito maior. Conforme essas ferramentas entram no cotidiano, surge uma nova preocupação: quem não souber utilizá-las poderá enfrentar uma espécie diferente de exclusão digital. Uma iniciativa argentina acredita que o primeiro passo para evitar isso é surpreendentemente básico.

A nova brecha digital pode não ser sobre ter internet

A IA já entrou na rotina de milhões de pessoas, mas uma nova divisão digital começa a preocupar especialistas
© Pexels

Durante anos, falar em inclusão digital significava discutir acesso a computadores, smartphones e conexão à internet. A popularização da inteligência artificial adicionou outra camada ao problema.

As ferramentas estão disponíveis, mas nem todas as pessoas sabem como incorporá-las de maneira útil, segura e consciente.

Foi a partir dessa percepção que surgiu o IA para Todos, iniciativa da Agência de Habilidades para o Futuro, com acompanhamento da Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI).

A proposta oferece formação gratuita, virtual e aberta inclusive para quem nunca estudou inteligência artificial. O objetivo é diminuir a distância entre o impacto que essa tecnologia já exerce sobre a sociedade e aquilo que os cidadãos efetivamente sabem sobre ela.

Gustavo Álvarez, diretor da Agência, compara o momento atual ao início da popularização da internet. Primeiro, a tecnologia aparece cercada de dúvidas. Depois, passa gradualmente a fazer parte de atividades que antes pareciam não ter qualquer relação com ela.

A diferença é que a velocidade dessa nova transformação pode tornar a capacitação ainda mais urgente.

O curso começa por algo que milhões já carregam no bolso

A IA já entrou na rotina de milhões de pessoas, mas uma nova divisão digital começa a preocupar especialistas
© Sanket Mishra – Pexels

A ideia não é transformar todos em programadores ou especialistas em modelos de linguagem.

O curso possui quatro módulos e começa por ferramentas familiares, incluindo recursos de IA presentes no WhatsApp. Depois, avança para situações práticas, como pensar receitas, escrever mensagens e resolver tarefas relacionadas ao estudo ou ao trabalho.

No módulo final aparece uma questão cada vez mais importante: usar IA não significa simplesmente aceitar tudo o que ela responde.

Os participantes recebem orientações sobre ética, proteção de dados pessoais, avaliação de informações encontradas na internet e desenvolvimento de senso crítico.

A estratégia parece ter encontrado público rapidamente.

Segundo os responsáveis, o programa ultrapassou 38 mil inscritos em pouco tempo, enquanto a meta é alcançar pelo menos 100 mil pessoas.

A iniciativa também pretende chegar aos funcionários públicos da cidade e ampliar sua divulgação por meio de sindicatos e outras organizações.

Por trás desses números existe uma ideia simples: antes de discutir especializações avançadas em inteligência artificial, seria necessário criar uma base mínima compartilhada pela população.

O mercado de trabalho está no centro da preocupação

Naturalmente, uma das primeiras perguntas envolvendo inteligência artificial é o que acontecerá com os empregos.

Os responsáveis pelo projeto reconhecem que determinadas atividades poderão passar por mudanças significativas, exigindo reorganização de funções, novas competências e também regulamentações.

Ao mesmo tempo, defendem que a formação pode ajudar trabalhadores a utilizar essas ferramentas para complementar aquilo que já fazem, automatizando algumas atividades e liberando tempo para outras.

Essa estratégia faz parte de uma iniciativa mais ampla.

A Agência desenvolveu o Sistema de Identificação de Perfis Laborais (SIPLA), baseado também em informações coletadas junto às empresas. No último ano, foram consultadas mais de 300 companhias de dez setores produtivos para entender tendências, formação dos trabalhadores, impacto da IA e competências que devem ganhar importância.

Outra frente são as microcredenciais destinadas a reconhecer conhecimentos específicos. Mais de 50 mil já foram emitidas em parceria com mais de 140 instituições, segundo a Agência.

A lógica é tentar aproximar mais rapidamente educação e mercado de trabalho em um momento no qual determinadas habilidades podem mudar em poucos anos.

Aprender tecnologia deixou de ter idade

A IA já entrou na rotina de milhões de pessoas, mas uma nova divisão digital começa a preocupar especialistas
© jessica olivella – Pexels

Existe ainda outro detalhe importante nessa transformação: ela não afeta apenas quem está começando a carreira.

Programas voltados para pessoas acima dos 50 anos fazem parte da mesma estratégia de aprendizagem contínua. A intenção é apoiar quem pretende se recolocar profissionalmente, mudar de área ou finalmente desenvolver projetos que foram adiados durante anos.

Isso altera uma velha ideia sobre educação.

Em um cenário de rápidas transformações tecnológicas, terminar a formação acadêmica já não significa necessariamente encerrar a etapa de aprendizado profissional.

Novas ferramentas podem exigir atualizações ao longo de praticamente toda a vida.

Para a Agência, isso também envolve identificar talentos individuais e ajudar as pessoas a desenvolver capacidades que talvez ainda não tenham explorado.

A tecnologia não resolve tudo sozinha

Apesar do entusiasmo em torno da inteligência artificial, há uma mensagem importante no projeto: a tecnologia não deve ser tratada como mágica.

Saber escrever um comando para um chatbot é apenas uma pequena parte da alfabetização necessária.

Compreender limitações, verificar informações, proteger dados pessoais e decidir quando determinada ferramenta realmente faz sentido são competências igualmente importantes.

É justamente aí que a próxima grande divisão digital pode aparecer.

Talvez ela não separe simplesmente aqueles que possuem acesso à inteligência artificial daqueles que não possuem. A diferença poderá estar entre quem aprendeu a utilizá-la criticamente e quem apenas recebe suas respostas sem compreender como incorporá-las às próprias decisões.

A IA já chegou ao cotidiano. O próximo desafio será descobrir como milhões de pessoas aprenderão a conviver com ela sem deixar o próprio julgamento pelo caminho.

[Fonte: OEI]

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