A maioria de nós cresce aprendendo que causar boa impressão no trabalho é essencial. O problema é quando essa ambição começa a cobrar um preço alto demais. Sem perceber, o expediente se estende para dentro de casa, o notebook aparece no sofá e o descanso vira culpa. Especialistas alertam: aprender a impor limites é hoje uma das principais formas de evitar o burnout — e tudo pode começar com três palavras simples.
Por que “eu não posso” não funciona tão bem

Segundo Helen Tupper, coach de carreira e cofundadora da plataforma Squiggly Careers, a linguagem que usamos no trabalho molda como nossos limites são respeitados. Para ela, trocar “eu não posso” por “eu não quero” muda completamente a dinâmica.
“Quando você diz ‘eu não posso’, abre espaço para negociação. As pessoas tentam te convencer de que, no fundo, você dá conta”, explica. Já o “eu não quero” é mais direto, definitivo e difícil de contestar.
Um exemplo prático: em vez de dizer que não pode participar de reuniões fora do horário, vale afirmar algo como “não participo de reuniões depois das 17h porque busco meus filhos”. É claro, objetivo e estabelece limites sem drama.
Quando não dizer não cobra um preço alto
A chef e apresentadora de TV Lorraine Pascale é um exemplo claro de como ignorar limites pode levar ao colapso. Além da carreira na televisão, ela abriu uma confeitaria em Londres, publicou livros de receitas e ainda criava a filha sozinha.
“Eu simplesmente não era boa em dizer não”, contou. O perfeccionismo só piorava a situação: Pascale fazia questão de aprovar cada detalhe dos livros e dos projetos. O resultado foi um burnout que se manifestou tanto no corpo quanto na mente, com sintomas como aperto no peito, exaustão extrema e até aversão a se aproximar da cozinha.
A história mostra que o burnout não escolhe cargo, fama ou sucesso. Pode atingir qualquer pessoa — embora estatísticas indiquem que mulheres são mais afetadas, muitas vezes pela soma entre trabalho e responsabilidades familiares.
Burnout não é só estresse — e os números preocupam
Sentir estresse no trabalho é comum. Mas burnout é outra coisa. De acordo com especialistas, ele envolve três sintomas principais: exaustão intensa, distanciamento emocional e queda de desempenho. Se os três aparecem juntos, o alerta acende.
E os dados mostram que o problema está crescendo. Pesquisas indicam que 9 em cada 10 trabalhadores relataram níveis altos ou extremos de pressão no último ano. No Brasil, os afastamentos por burnout aumentaram 136% desde 2019, atingindo o maior número da última década.
Ajustar metas à sua capacidade atual é essencial
Para Claire Ashley, autora de The Burnout Doctor, manter horários rígidos de encerramento do trabalho ajuda o cérebro a completar o chamado “ciclo do estresse”. Mas isso, sozinho, não resolve tudo.
A solução real passa por alinhar expectativas à capacidade emocional e mental do momento. “Pergunte se o que você quer alcançar é razoável com os recursos que você tem agora”, diz.
No caso de Pascale, isso significou se afastar temporariamente da cozinha, buscar terapia e entender que a necessidade constante de agradar vinha de experiências da infância. Hoje, ela voltou ao trabalho de forma mais consciente e intencional.
“Corra a sua própria corrida”
Outro ponto importante é parar de se comparar o tempo todo. Tupper destaca a importância de reconhecer as próprias conquistas em vez de viver apenas pensando na próxima tarefa. Cada pessoa está em uma fase diferente da vida — e isso importa.
Nem todos conseguem impor limites com facilidade, especialmente em ambientes hierárquicos. Ainda assim, especialistas defendem a conversa aberta com gestores. Segundo o psiquiatra Richard Duggins, prevenir o burnout beneficia todo mundo, inclusive as empresas.
No fim, se o ambiente não muda, talvez seja preciso mudar de rota para se proteger. Como resume Lorraine Pascale: ser ambicioso é algo bonito. Mas aprender a dizer “eu não quero” pode ser o passo mais inteligente da carreira.
[Fonte: BBC]