Quando temperaturas despencam de forma abrupta, a reação costuma ser imediata: se está tão frio, como o planeta pode estar aquecendo? Essa pergunta voltou ao centro do debate após alertas de inverno extremo nos Estados Unidos. A discussão, no entanto, revela um equívoco recorrente sobre o funcionamento do clima. Para a ciência, episódios de frio intenso não negam o aquecimento global — eles fazem parte de um padrão maior, marcado por extremos cada vez mais frequentes.
O comentário que reacendeu a controvérsia
Diante do avanço de uma forte tempestade de inverno, que levou dezenas de estados norte-americanos a decretarem emergência, o presidente Donald Trump voltou a questionar publicamente a existência do aquecimento global. Em uma publicação nas redes sociais, ele ironizou o tema ao associar o frio recorde à ideia de que a crise climática não estaria acontecendo.
Não foi um episódio isolado. Ao longo dos anos, Trump já fez declarações semelhantes, sempre usando eventos climáticos pontuais como argumento para desacreditar a mudança climática. O problema dessa lógica é simples: ela confunde tempo com clima. Enquanto o tempo descreve condições momentâneas, o clima se refere a tendências observadas ao longo de décadas.
É justamente nessa diferença que mora o erro central do argumento.
Por que frio extremo não contradiz o aquecimento global

Para a ciência do clima, o aquecimento global não significa que todos os lugares ficarão quentes o tempo todo. O que está em jogo é o aumento da temperatura média do planeta e a desestabilização dos sistemas atmosféricos.
Esse aquecimento altera padrões de circulação do ar, como o vórtice polar, que ajuda a manter o ar gelado concentrado nas regiões mais próximas do Ártico. Quando esse sistema se enfraquece, massas de ar extremamente frio podem avançar para latitudes mais baixas, provocando ondas de frio intensas e fora do padrão histórico.
Ou seja, eventos extremos de frio não são uma exceção ao aquecimento global, mas uma de suas possíveis consequências. O mesmo vale para ondas de calor, secas prolongadas, tempestades mais violentas e chuvas intensas.
Os números que sustentam o consenso científico
Enquanto declarações políticas ganham destaque, os dados seguem apontando na mesma direção. O serviço climático Copernicus, da União Europeia, confirmou que 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado, com temperatura média global de 14,97 °C. Esse valor ficou 1,47 °C acima dos níveis pré-industriais.
A diferença para 2023 foi mínima, de apenas 0,01 °C, e 2024 segue como o ano mais quente da série histórica. A Nasa chega a números semelhantes, indicando que a Terra esteve cerca de 1,47 °C mais quente em 2024 em comparação com o final do século XIX.
Esse aquecimento não é objeto de debate entre especialistas. Mais de 99% dos cientistas do clima concordam que ele é causado principalmente pela atividade humana, sobretudo pela queima de combustíveis fósseis. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) classifica esse processo como “inequívoco” e sem precedentes em milhares de anos.
Evidências que vão além da temperatura
O aumento da temperatura média é apenas um dos sinais da crise climática. Outras evidências se acumulam em ritmo acelerado. Geleiras em todo o mundo estão derretendo mais rápido do que o previsto, o gelo do Ártico atinge mínimos históricos e o nível do mar sobe a uma velocidade cada vez maior.
As concentrações de dióxido de carbono na atmosfera chegaram a 422,5 partes por milhão em 2024 — um aumento de 52% em relação à era pré-industrial. Ao mesmo tempo, as emissões globais de combustíveis fósseis bateram novo recorde, alcançando 37,4 bilhões de toneladas no último ano.
Esses números ajudam a explicar por que os impactos já são visíveis no cotidiano. Segundo a ONU, mais de 3 bilhões de pessoas vivem em áreas altamente vulneráveis às mudanças climáticas, e metade da população mundial enfrenta escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano.
Eventos extremos estão se tornando o novo normal
Ondas de calor mais longas, secas persistentes, tempestades intensas e episódios de frio extremo fazem parte de um mesmo quadro: um sistema climático mais instável. O aquecimento global funciona como um amplificador, tornando fenômenos naturais mais frequentes e mais intensos.
É por isso que usar uma onda de frio como argumento contra a crise climática ignora o contexto mais amplo. A ciência não prevê um mundo uniformemente quente, mas um planeta mais imprevisível, com impactos diretos sobre agricultura, infraestrutura, saúde pública e segurança hídrica.
Ainda há tempo para evitar os piores cenários?
Segundo a Organização Meteorológica Mundial, alguns efeitos da crise já são irreversíveis. Mesmo que as emissões globais fossem zeradas hoje, o nível do mar continuaria subindo por séculos, e muitas geleiras já não podem ser salvas.
Isso não significa, porém, que tudo esteja perdido. O IPCC afirma que ainda é possível limitar o aquecimento global a 1,5 °C ou 2 °C acima dos níveis pré-industriais — metas definidas no Acordo de Paris, em 2015, como um limite relativamente seguro para evitar impactos catastróficos.
Para isso, as emissões precisam atingir o pico imediatamente, cair pela metade até 2030 e chegar a zero líquido em 2050. Medidas como a redução rápida do metano, um gás muito mais potente que o CO₂, poderiam gerar efeitos perceptíveis já nas próximas décadas.
Especialistas alertam que cortes graduais não serão suficientes. As reduções precisam ser profundas e rápidas. Caso contrário, até mesmo o limite de 2 °C pode se tornar inalcançável.
[Fonte: G1 – Globo]