Durante muito tempo, os microplásticos foram tratados como partículas que simplesmente permaneciam na água, no solo ou na areia. Hoje, pesquisas mostram uma realidade bem mais complexa: eles estão entrando em diferentes organismos e circulando por ecossistemas inteiros. Mas um estudo realizado em um manguezal da Colômbia revelou algo especialmente intrigante. O problema não termina quando o plástico é ingerido. Em determinadas condições, o próprio animal pode alterar essas partículas.
O que os pesquisadores encontraram no manguezal
A descoberta aconteceu nos manguezais urbanos de Turbo, no golfo de Urabá, na Colômbia. Pesquisadores da Universidade de Antioquia estudaram o caranguejo-violinista (Minuca vocator), uma espécie pequena, com cerca de 3 centímetros, que se alimenta filtrando matéria orgânica presente no sedimento.
Durante 66 dias de trabalho de campo, realizados em 2023, a equipe utilizou microesferas de plástico marcadas com cores fluorescentes. Depois, analisou 95 caranguejos para verificar o que havia acontecido com as partículas.
O resultado chamou atenção imediatamente: 91 dos animais haviam incorporado as microesferas. Em média, cada indivíduo carregava cerca de 49 partículas.
Mas a ingestão não era a parte mais surpreendente.
Ao examinar o interior dos caranguejos, os pesquisadores perceberam que aproximadamente 15% das microesferas estavam quebradas. Isso significa que o plástico não apenas entrou no organismo: ele sofreu uma transformação física durante sua passagem pelo animal.
Na natureza, processos como a ação da luz solar, das ondas e da areia podem levar décadas ou até séculos para fragmentar determinados materiais plásticos. Dentro desses pequenos crustáceos, porém, algo muito mais rápido parece estar acontecendo.
O estômago do caranguejo pode estar funcionando como um triturador
A explicação mais provável está em uma característica pouco conhecida desses animais.
Segundo o pesquisador José Riascos, responsável pela equipe, o estômago do caranguejo-violinista possui uma estrutura semelhante a pequenos dentes. Durante o processamento do alimento, essas estruturas podem exercer força suficiente para quebrar parte das partículas plásticas ingeridas.
É aqui que o achado ganha uma dimensão ainda mais preocupante.
Fragmentar o plástico não significa eliminá-lo. Pelo contrário: uma partícula maior pode se transformar em várias partículas menores e, potencialmente, mais difíceis de detectar e remover do ambiente.
Depois de serem eliminados pelo organismo, esses fragmentos podem voltar ao sedimento e entrar novamente na cadeia alimentar. Assim, o animal que inicialmente incorporou o plástico pode acabar contribuindo para sua transformação e redistribuição pelo ecossistema.
E o caranguejo colombiano está longe de ser um caso isolado.

Do polvo aos animais da Amazônia, o problema se espalha
Em Campeche, no México, outro estudo publicado em julho de 2026 analisou 95 polvos-maias (Octopus maya). Microplásticos foram encontrados em 89 deles, o equivalente a 93,68% dos exemplares examinados.
Ao todo, foram identificadas 367 partículas. A média também aumentou: passou de 3,18 partículas por animal em 2021 para 4,62 em 2024, uma alta de 30,8% em apenas três anos.
O dado preocupa especialmente porque o polvo-maia representa cerca de 75% da captura regional de polvos na Península de Yucatán, uma atividade econômica importante para diversas comunidades.
Ainda assim, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: como o trato digestivo normalmente não é consumido, retirar as vísceras reduz grande parte da exposição direta para quem come o animal. O impacto da contaminação sobre crescimento e reprodução, porém, ainda precisa ser investigado.
Na Amazônia, a situação mostra que o fenômeno também está longe dos oceanos. Pesquisas no Parque Nacional de Anavilhanas encontraram microplásticos em cerca de oito em cada dez peixes analisados e em até 95% dos morcegos estudados, além de sinais em antas e ninhos.
Isso sugere que áreas protegidas e distantes das grandes cidades também não estão isoladas da circulação dessas partículas.
O problema pode ir além do plástico
Existe ainda uma segunda preocupação, menos visível, associada aos microplásticos.
Pesquisas indicam que essas partículas podem favorecer a formação de biofilmes, estruturas que criam condições favoráveis para determinadas bactérias. Em ambientes associados aos microplásticos, algumas bactérias podem apresentar maior resistência aos antibióticos e facilitar a disseminação de genes relacionados a essa resistência.
O cenário, portanto, é mais complexo do que simplesmente encontrar plástico dentro de animais.
As partículas podem circular entre água, sedimentos e organismos, sofrer alterações físicas e servir como parte de ambientes onde microrganismos interagem. O estudo colombiano acrescenta uma peça particularmente curiosa a esse quebra-cabeça: em alguns casos, o próprio animal pode ajudar a transformar o plástico em fragmentos ainda menores.
É justamente por isso que o achado dos caranguejos é tão relevante. Ele mostra que a fauna não é apenas vítima passiva da poluição. Os próprios organismos podem participar da trajetória que determina o destino dessas partículas depois que elas entram na cadeia alimentar.