Quase todo mundo já passou por isso: entrar em um cômodo e esquecer o motivo, não lembrar o nome de alguém conhecido ou confundir informações simples do dia a dia. Na maioria das vezes, esses episódios são normais. Mas, com o avanço da idade, alguns sinais merecem atenção. Para o neurologista e neuropsiquiatra Richard Restak, distinguir distração de deterioração cognitiva é essencial — e hábitos cotidianos podem fazer toda a diferença.
Lapsos comuns ou sinais de alerta?

Segundo Restak, grande parte das falhas de memória não está ligada a doenças neurológicas, mas à falta de atenção. Em entrevista ao The Guardian, ele explica que o cérebro só consegue recuperar uma informação se ela tiver sido corretamente registrada.
“Se você está em uma festa, mas com a cabeça no trabalho, pode esquecer o nome de alguém simplesmente porque nunca consolidou essa informação”, afirma. A memória, diz ele, depende de dois processos: armazenar e recuperar. Se o primeiro falha, o segundo se torna impossível.
Quando o esquecimento deixa de ser normal
Nem todo esquecimento, porém, pode ser atribuído à distração. Para o ex-presidente da Associação Americana de Neuropsiquiatria, há situações que acendem um sinal de alerta.
“Se você esquece onde deixou as chaves e depois as encontra dentro da geladeira — ou abre a geladeira e encontra um jornal — isso vai além do esquecimento comum”, alerta Restak. Esses episódios indicam falhas mais profundas nos circuitos cerebrais e podem ser os primeiros sinais de um comprometimento cognitivo mais sério.
É possível prevenir o declínio cognitivo?
Embora não exista garantia absoluta contra doenças como o Alzheimer, cada vez mais estudos apontam que parte dos casos pode ser evitada ou adiada com mudanças no estilo de vida. Restak defende que o cérebro responde bem a estímulos contínuos, mesmo em idades avançadas.
Atividades como leitura regular, exercícios físicos, sono adequado e cuidados com visão e audição ajudam a manter as conexões neurais ativas. A alimentação equilibrada também entra nesse pacote, assim como a redução — ou eliminação — de hábitos prejudiciais.
O álcool como inimigo silencioso do cérebro

É nesse ponto que a posição de Restak se torna mais contundente. Para ele, o consumo de álcool após os 65 anos representa um risco desnecessário para a saúde cerebral.
“O álcool é uma neurotoxina — muito fraca, mas ainda assim uma neurotoxina. Ele não é bom para as células nervosas”, afirma. Por isso, sua recomendação é clara: abstinência total e permanente a partir dessa idade.
Segundo o neurologista, com o envelhecimento, o cérebro se torna mais vulnerável a substâncias que antes eram toleradas com menos impacto. O que parecia um consumo moderado pode passar a ter efeitos cumulativos e prejudiciais.
Reduzir riscos, não prometer milagres
Restak faz questão de frisar que nenhuma mudança de hábito oferece proteção absoluta contra a demência. Em vez disso, ele propõe uma analogia simples: dirigir um carro.
“Não dá para garantir que você nunca sofrerá um acidente. Mas usar cinto de segurança, controlar a velocidade e manter o carro em bom estado reduz muito as chances”, explica. Com o cérebro, o raciocínio é semelhante: cuidar da saúde mental diminui riscos, mesmo sem eliminá-los completamente.
Um recado direto para uma população que envelhece
Em um mundo onde a expectativa de vida aumenta e o envelhecimento cognitivo se torna uma preocupação central, o alerta de Restak ganha peso. Ele não propõe soluções milagrosas nem promessas exageradas, mas escolhas práticas e baseadas em décadas de experiência clínica.
A mensagem final é clara: lapsos de memória fazem parte da vida, mas ignorar sinais persistentes — ou manter hábitos potencialmente nocivos — pode custar caro no longo prazo. Cuidar do cérebro, segundo o neurocientista, é uma forma de investir em autonomia, qualidade de vida e clareza mental no futuro.
[ Fonte: Men´s Health ]