Restaurar um ambiente natural degradado normalmente exige muito trabalho no próprio terreno: equipes, ferramentas, mudas e muitas horas enfrentando áreas difíceis de atravessar. Mas, em um projeto no noroeste dos Estados Unidos, os pesquisadores perceberam que insistir nesse modelo poderia tornar a missão ainda mais lenta e complicada. A alternativa encontrada parece saída de um filme: levar a vegetação até o local de uma maneira que praticamente elimina o problema do acesso.
O desafio estava escondido entre a vegetação
Caminhar por um pântano tomado por plantas invasoras não é exatamente uma tarefa simples. O terreno encharcado dificulta a circulação, enquanto a vegetação já estabelecida ocupa espaço, bloqueia canais e cria uma enorme vantagem sobre qualquer espécie nativa que tente crescer ali.
Foi justamente esse cenário que os responsáveis por um projeto de restauração encontraram ao trabalhar em uma área próxima a Bear Creek, um afluente do rio Wallace, no estado de Washington.
O problema principal era o chamado reed canary grass, conhecido em português como capim-canário. A espécie se espalha rapidamente e pode dominar áreas úmidas, alterando a estrutura dos canais e prejudicando ambientes utilizados por peixes.
Entre os animais afetados está o salmão coho, que depende desses cursos d’água durante parte de seu ciclo de vida. Quando a vegetação invasora ocupa os canais, ela pode reduzir a qualidade do habitat e contribuir para que a água fique mais quente e menos favorável aos peixes.
Em vez de simplesmente abrir caminho pela área e plantar árvores uma a uma, os pesquisadores decidiram dar às espécies nativas uma vantagem desde o primeiro momento.
A ideia incomum que mudou o jeito de plantar
A estratégia começou longe do pântano. Árvores e arbustos nativos foram previamente plantados sobre paletes de madeira no viveiro de peixes Wallace Creek, administrado pelo Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Washington.
Depois veio a parte mais surpreendente do projeto.
Os paletes foram transportados individualmente até o local de restauração por um helicóptero. Suspensos por cordas, eles foram posicionados diretamente sobre as áreas dominadas pela vegetação invasora.
Ao todo, foram distribuídos 90 paletes pré-plantados em três parcelas de aproximadamente 15 por 18 metros. Cada uma recebeu uma combinação de espécies nativas, incluindo abeto de Sitka, cedro-vermelho-ocidental e diferentes arbustos.
A lógica é relativamente simples: em vez de pedir que uma pequena muda enfrente sozinha uma vegetação invasora já consolidada, a equipe instala uma espécie de “ilha” de vegetação nativa que já chega ao terreno com um desenvolvimento inicial.
O uso do helicóptero também resolveu outro problema. Colocar máquinas pesadas dentro de um pântano poderia compactar o solo e provocar novos danos justamente no ambiente que o projeto pretende recuperar.
Agora começa a parte mais importante
O fato de a técnica ser visualmente impressionante não significa que ela já esteja comprovada como solução definitiva. O projeto foi estruturado justamente para descobrir se esse método realmente consegue produzir resultados melhores ou comparáveis aos das técnicas tradicionais.
Para isso, os pesquisadores criaram áreas de comparação. Além dos 90 paletes, foram instaladas 1.050 estacas de salgueiro em três parcelas diferentes. Também foram estabelecidas três parcelas de controle dentro do próprio pântano.
Essa estrutura permitirá acompanhar o desenvolvimento da vegetação ao longo do tempo e comparar diferentes estratégias de restauração.
A expectativa é que as árvores e os arbustos nativos cresçam, criem sombra, ofereçam abrigo e favoreçam uma maior diversidade de insetos e outros organismos. Tudo isso pode contribuir para melhorar as condições do habitat utilizado pelo salmão.
A área foi adquirida pelas Tribos Tulalip justamente com o objetivo de recuperar o ambiente natural ao longo de Bear Creek. Como o curso d’água abriga salmões coho, restaurar sua estrutura pode ser importante para a sobrevivência dos peixes jovens antes de sua migração para o oceano.
O projeto recebeu financiamento de um programa da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) voltado a iniciativas inovadoras e experimentais de recuperação de áreas úmidas.
Se os resultados forem positivos, a experiência poderá ajudar outras regiões do noroeste do Pacífico que enfrentam o avanço do mesmo tipo de vegetação invasora. E o mais curioso é que, neste caso, parte da solução não precisou atravessar o terreno: ela simplesmente chegou pelo ar.