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Tecnologia

Um ‘exército do bem’ está invadindo perfis no TikTok — e a psicologia explica por que isso pode funcionar

O Kindness Mob mobiliza milhares de pessoas para inundar vítimas de assédio com comentários positivos. A estratégia explora o mesmo efeito de manada usado pelos trolls, mas na direção oposta.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Todos os dias, Laura Tigeleiro abria o TikTok e encontrava uma enxurrada de ataques. Moradora de Staten Island, em Nova York, ela tem esclerose múltipla, condição que fez com que um de seus olhos ficasse desviado. Era justamente essa característica que atraía comentários cruéis.

Tigeleiro queria apenas publicar receitas saudáveis e conhecer pessoas. Até que, em março, algo inesperado aconteceu: um de seus vídeos recebeu mais de 15 mil comentários positivos.

Ela havia se tornado alvo do Kindness Mob, uma espécie de “exército da gentileza” criado por Tyler Brickley para combater o assédio usando algumas das mesmas ferramentas que fazem o ódio se espalhar pelas redes sociais.

Uma invasão de comentários positivos

Tiktok Transforma ComentáriOS Com áudiOS, Enquetes E Carrosséis De Fotos
© Shutterstock / Tada Images

Brickley, especialista em marketing digital de Kansas City, nos Estados Unidos, criou o projeto em 2023.

A ideia é simples. Ele identifica alguém que esteja sofrendo ataques ou sendo ignorado no TikTok e direciona seus seguidores para o perfil. Em vez de insultos, porém, eles deixam milhares de mensagens de apoio.

Brickley descreve a estratégia como uma espécie de trolling positivo.

O objetivo é aproveitar mecanismos comuns do assédio online, como coordenação, anonimato e comportamento de grupo, para produzir o efeito contrário.

A iniciativa cresceu muito além das expectativas iniciais. Brickley imaginava reunir cerca de dez pessoas por ação. Hoje, seu perfil mobiliza centenas de milhares de seguidores.

Segundo ele, cerca de 350 campanhas já foram organizadas, com aproximadamente mil comentários em média por vídeo escolhido. Algumas ações chegam a gerar dezenas de milhares de mensagens e milhões de visualizações.

Até Paris Hilton já participou de uma dessas mobilizações.

Para algumas pessoas, o impacto foi enorme

As consequências podem ultrapassar os comentários positivos.

Renee Penick, de Ohio, recebeu a mobilização enquanto acompanhava o marido hospitalizado. Ela conta que as mensagens criaram uma comunidade em torno de seus vídeos durante um momento particularmente difícil.

Nocturne, uma musicista do estado de Nova York, ganhou tantos seguidores depois da iniciativa que passou a alcançar um público muito maior com seu trabalho.

Com Tigeleiro aconteceu algo semelhante.

Depois da campanha, seu número de seguidores cresceu o suficiente para que ela começasse a receber pagamentos do TikTok. Segundo seu relato, a renda obtida posteriormente permitiu até comprar um carro que sua família precisava.

Para Brickley, entretanto, o objetivo não é transformar o Kindness Mob no protagonista.

A intenção é retirar o ruído provocado pelos ataques para permitir que o conteúdo original da pessoa volte a receber atenção.

Por que a gentileza também pode ser contagiosa

Existe uma explicação estudada pela psicologia e pelas ciências sociais para o fenômeno.

Nicholas Christakis, professor da Universidade Yale, pesquisa como comportamentos podem se espalhar por redes sociais. Esse processo é conhecido como contágio social.

A lógica é relativamente simples: nossas ações podem influenciar pessoas que, posteriormente, influenciam outras.

Experimentos conduzidos por pesquisadores da área mostraram que comportamentos cooperativos podem produzir verdadeiras cascatas dentro de grupos.

Uma pessoa trata outra com gentileza. Essa segunda pessoa pode se tornar mais propensa a fazer o mesmo com uma terceira, criando uma sequência que alcança indivíduos que nunca tiveram contato com quem iniciou o comportamento.

O mesmo mecanismo, porém, também pode funcionar na direção contrária.

O efeito de manada ajuda a explicar o problema

Parte dos comentários agressivos encontrados nas redes sociais pode ser estimulada pelo comportamento observado no restante do grupo.

Ao encontrar uma publicação já tomada por ataques, algumas pessoas podem sentir que aquele comportamento é socialmente aceito naquele ambiente.

Brickley partiu justamente dessa percepção.

Se comentários negativos ajudam a produzir novos comentários negativos, uma quantidade suficientemente grande de mensagens positivas poderia alterar a norma percebida pelos usuários.

Em vez de combater cada troll individualmente, o Kindness Mob tenta modificar o ambiente ao redor da publicação.

É uma estratégia especialmente interessante porque as próprias redes sociais podem favorecer conflitos.

Algoritmos projetados para maximizar engajamento frequentemente destacam conteúdos capazes de provocar reações intensas. Ao mesmo tempo, distância física e anonimato reduzem algumas das barreiras sociais existentes nas interações presenciais.

Poucas pessoas entrariam na casa de um desconhecido simplesmente para insultar sua aparência. Na internet, entretanto, a distância entre os envolvidos pode tornar esse comportamento muito mais fácil.

Só a gentileza pode mudar as redes sociais?

As Quatro Ações Judiciais Nos Eua Que Podem Mudar Para Sempre O Funcionamento Das Redes Sociais
© Getty Images – Unsplash

Pesquisadores alertam que iniciativas como o Kindness Mob não resolvem sozinhas os problemas estruturais das plataformas.

As empresas responsáveis pelas redes sociais também influenciam o comportamento dos usuários por meio de seus sistemas de recomendação, regras de moderação e incentivos de engajamento.

Ao mesmo tempo, mudanças tecnológicas podem não ser suficientes.

Criar novas normas sociais sobre como as pessoas devem se comportar online também pode ser parte da solução.

Para Brickley, essa percepção ficou ainda mais clara depois que ele próprio recebeu uma mobilização.

No ano passado, após passar por uma cirurgia nas costas, sua esposa organizou secretamente uma campanha para que os seguidores do projeto enviassem mensagens para ele.

Quando abriu o celular, encontrou cerca de mil comentários.

Brickley conta que chorou enquanto lia as mensagens e voltou a elas diversas vezes durante a recuperação.

Foi quando percebeu que o mecanismo que havia criado para ajudar desconhecidos também funcionava quando ele estava do outro lado da tela.

O Kindness Mob pode ser apenas uma pequena experiência dentro de uma internet dominada por bilhões de interações diárias. Mas sua proposta demonstra algo importante: se comportamentos negativos podem se espalhar rapidamente pelas redes, a gentileza também pode.

 

[ Fonte: BBC ]

 

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